Eventualmente, o suicídio retorna aos centros das atenções; seja por que alguma produção artística, como a publicação do livro “Os sofrimentos do jovem Weither” do filósofo Goethe, em 1774 (REVISTA ARCO, 2019), ou da série “13 Reasons Why”, em 2017 (EL PAÍS, 2019), seja por algum acontecimento midiático, como os casos envolvendo o jogo da Baleia Azul ou, mais recentemente, do Homem-Pateta (CATRACA LIVRE, 2020). Mesmo com tais aparições, relativamente esporádicas no âmbito da opinião pública, essa problemática é contínua e tratar da mesma ainda gera opiniões divergentes.
Primeiramente, há relatos de desejo de dar fim a vida em idades bastante precoces. Por exemplo, a literatura científica traz que crianças com 4 anos já são capazes de exprimirem o desejo de se matar (HENNEFIELD et al., 2019). No cotidiano da prática clínica também não é diferente, uma vez que pacientes com 5 ou 6 anos de idade se queixam de querer acabar com seus sofrimentos por meio do suicídio. Ora, tais indivíduos, apesar de não serem reconhecidos como seres muito avançados intelecto e cognitivamente (SOUSA et al., 2017); como também, não serem muitas vezes capazes de dimensionarem a gravidade de uma tentativa de suicídio. Logo, mesmo não sabendo muitos detalhes sobre a rede internacional de computadores (internet), nem mesmo tendo visto o vídeo do “Homem-Pateta”, tampouco ter participado do jogo Baleia Azul, podem se cortar ou tentar tomar veneno, entre outras formas de autoaniquilamento.
Nesse sentido, embora seja totalmente compreensível o desespero de uma mãe que descobre que seu filho está assistindo a uma cena de enforcamento no vídeo do celular (O GLOBO, 2019) ou conversando com alguém que está o incitando a retirar sua própria vida (CATRACA LIVRE, 2020), tal indignação precisa abrir caminho para maiores discussões e esclarecimentos acerca da temática. No entanto, o que se percebe é que parte da sociedade ainda é preconceituosa quanto a isso; por conseguinte, há a reprodução de um discurso que defende a tese de que o silêncio, especialmente para com as crianças e jovens, fosse o melhor caminho a ser seguido. Falar sobre o suicídio o previne e não o estimula. O preconceito e o estigma em relação a este problema de saúde pública têm feito com que Campo Grande e Mato Grosso do Sul ocupem, respectivamente, os maiores índices de suicídio entre as capitais e os estados brasileiros.
Essa postura conservadora e retrógrada não poderia estar mais equivocada. É reconhecido que o suicídio é multifatorial, isto é, o simples fato de ver uma imagem não é condição necessária e suficiente para os levar a se autodestruir. Segundo pesquisas, crianças buscam acabar com suas vidas devido a diversos motivos, como o bullying, abuso físico e sexual, família desestruturada, transtornos mentais (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH), depressão, dificuldades de enfrentamento, entre tantos outros fatores (SOUSA et al., 2017). Portanto, se a intenção é mitigar os números de tentativas de suicídio, bem como a concretização das mesmas, o enfoque precisa ser dado nas causas da problemática. Para tanto, ao invés de procurarem esconder tal assunto, fato que reforça o tabu em seu entorno, é preciso que haja um esforço para que o mesmo ocupe os espaços de comunicação, a fim de se clarificarem suas razões e mecanismos predisponentes. Tal prevenção deve ocorrer não somente no “Setembro Amarelo”, mas no ano inteiro.
Seguindo essa lógica, deve-se alertar familiares e amigos de que as crianças não só podem ter ideia da dimensão e gravidade de um ato suicida, como também são capazes de se automutilarem e tomarem medidas que visem à interrupção de sua existência. Não obstante, é de suma importância que pais e professores conversem abertamente com as crianças sobre sentimentos, angústias e medidas de enfrentamento diante de fatores estressores. Isto para que se possam identificar sintomas de sofrimento psíquico, mesmo que minimamente, para que os devidos indivíduos sejam encaminhados aos profissionais especializados (como psiquiatras, psicólogos, pediatras, neurologistas, entre outros). Os pais, cuidadores e a sociedade em geral não devem negligenciar a questão do suicídio, na infância e adolescência; aliás, em nenhuma faixa etária. Salienta-se que tais medidas só poderão ser colocadas em prática, a partir do momento em que se fale amplamente sobre o suicídio e quando se estiver bem claro que, desde a mais tenra idade, crianças também podem se matam.
Bruno Massayuki Makimoto Monteiro (brunoftmakimoto@hotmail.com)
Acadêmico de medicina da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Campo Grande, MS, Brasil
José Carlos Souza (josecarlossouza@uol.com.br)
PhD em saúde mental, psiquiatra, docente do curso de Medicina da UEMS





