A depressão é um problema de saúde pública, que pode não só acometer qualquer faixa etária como também atingir de maneira diferente a depender da fase da vida (OMS, 1993). Por exemplo, está documentado que crianças, com um ano ou menos de vida, manifestam sintomas depressivos, conhecidos como sintomas do hospitalismo, quando não recebem, em seus lares, os mesmos cuidados e afetos tidos no hospital, ao serem internadas por algum problema médico. Normalmente, se assim o for, o seu quadro clínico é recidivado, ou seja, a doença ou os sintomas tratados reaparecem.
Sabe-se que a depressão infantil é uma doença orgânica com variáveis biopsicossociais. Existem alterações neuroquímicas cerebrais especialmente da serotonina, noradrenalina e dopamina, que são neurotransmissores responsáveis pelo humor, sono, apetite, prazer, vontade, entre outros. Podem ser causas desta disfunção a herança genética (de pais e outros parentes depressivos), anormalidades e/ou falhas em algumas áreas específicas do cérebro. Outros motivos para a depressão infantil são a falta de resiliência (isto é, dificuldade no enfrentamento de situações adversas da vida, como a separação dos pais sem o devido preparo e orientação do menor); maus tratos e negligência em seus cuidados; abuso sexual, moral e emocional; baixa autoestima; aspectos culturais e familiares; abandono infantil; privação materna e psicopatologias dos pais (Huttel et.al, 2011). Em decorrência disso, aspectos importantes do desenvolvimento tanto neuropsicomotor como psicossociais, cognitivos e interativos familiar podem ser prejudicados na criança.
Entre os sinais e sintomas mais comuns da depressão infantil estão a dor de cabeça e abdominal, fadiga, tontura, dificuldade de concentração (muitas vezes confundida com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), ansiedade presente ou antecipatória (“sofrer por antecipação”), fobias (medos irracionais), agitação motora, irritabilidade, prejuízo no apetite e no sono, diminuição do peso corporal, urinar na própria roupa (enurese), encoprese (evacuar na própria roupa), tristeza, isolamento social, auto e/ou heteroagressividade, autocrítica e autodepreciação, perda do interesse e prazer pela escola e pelo brincar, pesadelos e terrores noturnos, ideias e planos suicidas, automutilações, entre outros. Além disso, independente da faixa etária, classe socioeconômica, sexo, entre outros aspectos sociodemográficos, a depressão pode ser leve, moderada ou grave, sendo que nesta última há atitudes parassuicidas e suicidas.
Os cuidadores devem estar atentos a tais tipos de manifestações, as quais podem culminar com tentativas de suicídio propriamente ditas. Os menores, com frequência, têm consciência do perigo que estão passando; entretanto, alguns de seus conflitos inconscientes podem prevalecer, levando-os a praticarem atitudes de risco numa tentativa de mobilizar a atenção dos seus conviventes. Cabe ressaltar que as crianças não são miniaturas de adultos; com efeito, podem se desesperar perante a situações amargurantes e existenciais. Assim, é essencial a ajuda de seus cuidadores para se detectarem estas intenções e se prevenirem das tentativas de autoaniquilamento (Huttel et.al, 2011).
O diagnóstico da depressão é clínico; não há exames de sangue, urina, radiografias, eletroencefalograma e outros que fazem o seu diagnóstico. Este é realizado através da anamnese, que é a história de vida da pessoa e o exame do Estado mental, em que se avaliam as funções mentais como atenção, memória, sono, apetite, humor, afetos, emoções, instinto de vida e morte, atitude de automutilação, ideação e planejamento suicida (Souza & Souza, 2004; Souza et.al, 2007).
Quando bem feito, o tratamento é altamente eficaz e evita que a depressão prossiga na adolescência, na vida adulta e no idoso, enfatizando que esta terapêutica deve ser multidisciplinar, ou seja, o paciente e toda a sua família/cuidadores precisam ser envolvidos no processo. Ademais, a escola possui um papel importante, integrando-se ao tratamento e entendendo a situação da criança depressiva, sem preconceito e estigmas; pois estes muitas vezes atrasam o diagnóstico, quando já existem comprometimentos sérios biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. A intervenção medicamentosa, geralmente, consiste na administração de medicamentos antidepressivos, ansiolíticos e/ou hipnóticos. Dentro dessa perspectiva, é oportuno ser dito que a dose para o paciente infantil é menor do que a dos adultos; e a troca de medicamentos é comum, para se alcançar a posologia mais adequada. Há de se mencionar também que os antidepressivos não causam dependência química (Souza et al., 2020).
Na prática médica diária, percebe-se que o atraso na procura do tratamento é muitas vezes em virtude do sentimento de culpa dos pais e/ou responsáveis em relação à depressão na criança. Este fato é mais evidente quando os cuidadores negligenciam as atitudes parassuicidas (isto é, atos que levam ao risco de morte, mas não há uma clara intenção de se matar), como as automutilações e a prática dos desafios de jogos, tal qual ocorreu com a Baleia Azul e outros. Da mesma forma, este sentimento de culpabilidade aflora na medida em que a criança expressa ideias e planos suicidas, na maneira e linguagem dela, que podem ser subliminares.
Acontecimentos também comuns são pais/responsáveis informando “acidentes” de manuseio de armas de fogo, enforcamento com cordão de sapato, ingestão de veneno de rato e quedas de grandes alturas. Muitas vezes, esses cuidadores mais próximos são os primeiros a detectarem as alterações de comportamento em seus filhos menores de idade. Outrossim, na escola, os professores precisam prestar atenção às mudanças, desde irritabilidade, falta de concentração, oscilações do humor, instabilidade emocional, diminuição do apetite na hora da merenda escolar, sonolência diurna por conta de uma noite mal dormida, entre outros. Portanto, há de se salientar que não apenas os familiares, mas também os professores, bem como outros cuidadores podem ajudar o médico na avaliação da criança, perguntando-lhes abertamente se estão com algum problema emocional, inclusive com ideia de morrer, de sumir ou de dormir para sempre (linguagens subliminares que estas podem apresentar no curso de uma depressão grave). Dessa forma, contribui-se para que vidas sejam amparadas e salvas dessa importante e séria questão de saúde pública, a depressão infantil.
José Carlos Souza (josecarlossouza@uol.com.br)
PhD em saúde mental, psiquiatra, docente do curso de Medicina da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Campo Grande, MS, Brasil
Bruno Massayuki Makimoto Monteiro (brunoftmakimoto@hotmail.com)
Acadêmico de medicina da UEMS





