Sir Frank Williams, um dos mais importantes nomes da história da Fórmula 1

Foi há exatos 35 anos, no dia 6 de março de 1986, que Sir Francis Owen Garbatt Williams, ou, como queiram, Frank Williams, ficou paraplégico após um acidente de estrada na França na saída de um teste de Nelson Piquet com o novo modelo FW11 em Paul Ricard. Mesmo numa cadeira de rodas, Frank seguiu no comando da equipe em 2012 e foi substituído por sua filha Claire. Esta saiu do time em 2020 após a venda para o grupo de investimentos Dorilton Capital.

Fundada em 1977, a Williams foi nove vezes campeã do Mundial de Construtores, em 1980, 1981, 1986, 1987, 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997. O time ainda foi sete vezes campeão do Mundial de Pilotos: 1980 (Alan Jones), 1982 (Keke Rosberg), 1987 (Nelson Piquet), 1992 (Nigel Mansell), 1993 (Alain Prost), 1996 (Damon Hill) e 1997 (Jacques Villeneuve).

Na última temporada da Fórmula 1, a equipe contou com o inglês George Russell e o canadense Nicholas Latifi e não marcou nenhum ponto – o inglês Jack Aitken substituiu Russell quando este correu pela Mercedes no lugar de Lewis Hamilton o GP de Sakhir.

Frank Williams ao lado de Nelson Piquet em 1987 — Foto: Reprodução

Frank Williams ao lado de Nelson Piquet em 1987 — Foto: Reprodução

A Williams tem uma ligação forte com o automobilismo brasileiro. Ainda em 1972, antes de se tornar definitivamente construtor, Frank Williams trabalhou com José Carlos Pace. Já com sua equipe consolidada, teve como pilotos Nelson Piquet (1986-1987), Ayrton Senna (1994), Antonio Pizzonia (2004-2005), Rubens Barrichello (2010-2011), Bruno Senna (2012) e Felipe Massa (2014-2017).

Vamos repassar a trajetória de Frank Williams?

Dificuldades e recuperação

 

Nascido em 1942, o inglês de South Shields chegou a ser piloto, mas decidiu focar sua carreira na gestão, e fundou a Frank Williams Racing Cars em 1966. Três anos depois, comprou um chassis Brabham e chegou à F1 com o amigo piloto Piers Courage. Em 1970, mudou para um chassis De Tomaso, mas a morte de Courage em Zandvoort no mesmo ano abalou Frank, que passou a ter graves problemas financeiros.

Frank Williams começou com sua equipe nos anos 1970 — Foto: Reprodução

Frank Williams começou com sua equipe nos anos 1970 — Foto: Reprodução

Certa vez, Frank tentou pagar uma dívida entregando o próprio relógio de pulso! Mas com muita disciplina e força de vontade, Williams conseguiu crescer e transformou sua equipe numa das potências da Fórmula 1. A importância de Frank é tão grande, que ele recebeu da Rainha Elizabeth a honraria de cavaleiro da Coroa Britânica.

Em 1973, Frank Williams se associou ao construtor italiano Iso para competir na F1. Depois, em 1975, construiu seu próprio carro, mas no ano seguinte se associou a Walter Wolf para seguir operando. Apenas em 1977, a Williams Grand Prix Engeneering surgiu definitivamente, numa sociedade entre Frank Williams e Patrick Head.

Frank Williams e Patrick Head fundaram equipe em 1977 — Foto: Reprodução

Frank Williams e Patrick Head fundaram equipe em 1977 — Foto: Reprodução

Com um forte apoio de patrocinadores sauditas, a Williams obteve a primeira vitória em 1979, com Clay Regazzoni no GP da Inglaterra. A Williams chegou ao primeiro título logo no ano seguinte, com Alan Jones. O modelo FW07 projetado por Patrick Head amplificou o conceito do carro-asa e levou a equipe ao topo. Em 1982, mesmo contra os poderosos motores turbo, a Williams foi campeã de pilotos com Keke Rosberg.

Em julho de 1983, Frank Williams resolveu presentear o jovem Ayrton Senna com um teste no circuito de Donington Park. O brasileiro de 23 anos quebrou o recorde da pista para carros com motor aspirado, mas Frank não tinha vaga para ele em 1984.

Ayrton Senna Frank Williams Donington Park teste com carro da Williams 1983 — Foto: Reprodução / Twitter

Ayrton Senna Frank Williams Donington Park teste com carro da Williams 1983 — Foto: Reprodução / Twitter

A Williams reencontrou a rota das vitórias após uma parceria com a Honda para o fornecimento de motores turbo, a partir do fim de 1983. Dois anos depois, a equipe venceu as últimas três corridas da temporada, o que dava excelentes perspectivas para os anos seguintes.

Acidente e período de glória

 

O dia 6 de março de 1986 mudou a vida de Frank Williams para sempre. Um acidente de estrada após um teste do novo modelo FW11 em Paul Ricard deixou o fundador da equipe paraplégico e preso a uma cadeira de rodas. De forma comovente, Frank voltou a um autódromo em julho, no GP da Inglaterra, em Brands Hatch.

Frank Williams ao lado de Nelson Piquet em 1987 — Foto: Reprodução

Frank Williams ao lado de Nelson Piquet em 1987 — Foto: Reprodução

Nelson Piquet, que chegara ao time como primeiro piloto, passou a ver o companheiro Nigel Mansell ser favorecido por Patrick Head, mas não quis incomodar Frank. Em 1986, os dois pilotos tiraram pontos um do outro, e Alain Prost foi campeão. Mas em 1987, já com Frank de volta ao trabalho mas sem atuar na linha de frente, Piquet foi tricampeão. Contra Head e companhia.

Nigel Mansell vence o GP da Espanha de 1992 com o FW14B — Foto: Divulgação/Williams

Nigel Mansell vence o GP da Espanha de 1992 com o FW14B — Foto: Divulgação/Williams

A Williams passou um período de entressafra depois que a Honda saiu, mas se recuperou com a Renault. Na virada para os anos 1990, com Patrick Head e Adrian Newey revolucionando a F1 por intermédio da eletrônica, a Williams se tornou, como disse Ayrton Senna, “de outro planeta”, ganhando os títulos de 1992 (Mansell) e 1993 (Prost).

Tragédia e inquérito

 

Frank Williams finalmente concretizou o sonho de contratar Ayrton Senna em 1994, e esperava-se um domínio ainda mais avassalador do que os de Mansell e Prost. Mas a Williams sofreu com a mudança de regulamento, que tirou de circulação a maior parte dos dispositivos eletrônicos (principalmente suspensão ativa e controle de tração).

Ayrton Senna discute com David Brown detalhes do volante da Williams — Foto: Getty Images

Ayrton Senna discute com David Brown detalhes do volante da Williams — Foto: Getty Images

Com problemas aerodinâmicos, Senna teve dificuldades nas primeiras corridas de 1994, e uma quebra da coluna de direção por uma solda malfeita causou o acidente fatal do brasileiro, em Imola. Frank chegou a ser indiciado, mas foi absolvido. Desde a morte do tricampeão, todos os carros da Williams têm estampado no bico um “S” em homenagem a Senna.

Frank Williams durante o velório de Ayrton Senna em São Paulo — Foto: Getty Images

Frank Williams durante o velório de Ayrton Senna em São Paulo — Foto: Getty Images

Anos depois, os destroços do carro de Ayrton foram devolvidos à Williams. Por ordem expressa de Frank, o que sobrou do modelo FW16 do acidente de Ayrton foi destruído sem que ninguém pudesse ver. O assunto Senna sempre foi muito delicado para Frank, que nunca se perdoou pelo tricampeão ter perdido a vida num de seus carros.

Declínio e venda

 

A Williams teve um novo período sem vitórias depois que a Renault deixou a F1, mas um acordo com a BMW devolveu a competitividade à equipe. No período, o time promoveu promessas como Jenson Button e Juan Pablo Montoya, que esteve perto do título de 2003 mas fracassou. A vitória do colombiano foi a última da parceria com a BMW, no fim de 2004.

Última vitória da Williams foi com Pastor Maldonado, na Espanha, em 2012 — Foto: Getty Images

Última vitória da Williams foi com Pastor Maldonado, na Espanha, em 2012 — Foto: Getty Images

Depois de anos com pouca competitividade, a Williams teve um sopro de esperança em 2012, e o venezuelano Pastor Maldonado conquistou no GP da Espanha aquela que viria a ser a última vitória da equipe.

Filha de Frank, Claire Williams passou a comandar a equipe, que, em 2014, mostrou um renascimento no começo da era dos motores híbridos. Conquistou sua última pole, com Felipe Massa na Áustria, e foi terceira colocada nos Mundiais de Construtores de 2014 e 2015. Depois, porém, a queda foi acentuada.

Felipe Massa, Valtteri Bottas, Frank Williams e Claire Williams no lançamento do carro, no início de março (Foto: Getty Images) — Foto: Getty Images

Felipe Massa, Valtteri Bottas, Frank Williams e Claire Williams no lançamento do carro, no início de março (Foto: Getty Images) — Foto: Getty Images

Nos últimos anos, Frank se afastou do dia a dia da Williams. A crise se acentuou, e, desde 2018, a equipe vem tendo o pior carro de todo o grid. Paradoxalmente, a organização inglesa tem se dedicado bastante a manter viva sua memória ao fazer a manutenção de seus carros antigos, sempre realizando diversas exibições pelo mundo.

Em 2020, com a crise econômica decorrente da pandemia de coronavírus, a Williams foi vendida para um grupo de investimentos, e Claire Williams deixou a direção geral do time. Foi o fim da ligação da família Williams com a equipe.

Frank Williams com carros históricos da Williams no ano de 2011 — Foto: Divulgação

Frank Williams com carros históricos da Williams no ano de 2011 — Foto: Divulgação