Não há condição de intervenção na Vale agora, diz Onyx

© Romério Cunha/VPR

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou nesta terça-feira, 29, que o governo federal vai aguardar a investigação das causas do desastre ocorrido com o rompimento de uma barragem da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), para decidir sobre uma eventual intervenção na diretoria da empresa. “Não há condição de haver nenhum grau de intervenção agora. Isso não seria uma boa sinalização para o mercado”, afirmou Onyx em uma entrevista coletiva realizada após a reunião semanal do conselho ministerial do governo.

O encontro tratou nesta terça-feira exclusivamente sobre o ocorrido em Minas Gerais.

O governo federal possui a chamada golden share, que dá poder especial para o Estado, além de ser representado por outros acionistas. Por isso, ele poderia convocar a reunião do conselho de administração da empresa e pressionar pela saída da atual diretoria. O governo brasileiro possui 12 ações do tipo na Vale.

Questionado sobre se o governo pretende fazer tal convocação ou se apoia a cúpula da empresa, o ministro afirmou apenas que “não cabe ao governo ficar atuando diretamente no comando das empresas que não são de sua responsabilidade direta”.

“Se as investigações mostrarem que há dolo, que há falha, o governo vai exercer o seu direito (de convocar o conselho de administração. … Mas o governo tem de ter humildade para saber que não pode tudo e prudência para saber que está em jogo um setor muito relevante para o País. Tem de haver equilíbrio”, afirmou Onyx.

Falta poder

Na segunda-feira, o presidente em exercício, Hamilton Mourão, afirmou que o gabinete de crise do governo estava estudando tal possibilidade. EXAME apurou que o Palácio do Planalto não tem poder de interferir na gestão da mineradora, que é uma empresa de capital privado listada na bolsa brasileira B3.

“Essa questão da diretoria da Vale está sendo estudada pelo grupo de crise. Vamos aguardar quais são as linhas de atuação que eles estão levantando”, disse Mourão a jornalistas enquanto deixava o Palácio do Planalto, admitindo não saber se o comitê pode tomar tal medida. “Tenho que estudar, não tenho certeza.”

Mineradora brasileira

A Vale perdeu, nesta segunda-feira, 24% de seu valor de mercado, o equivalente a 71 bilhões de reais, e a queda tende a continuar.

Três anos atrás, após o rompimento da barragem de Mariana que pertencia à Samarco, companhia controlada em parceria com a BHP, a Vale chegou a cair 45% no acumulado dos dias. Desta vez, além do dano social e ambiental, outros fatores na mesa tendem a contar para a reação dos investidores. O primeiro é o risco de crédito da mineradora. Metade do caixa da Vale, cerca de 12 bilhões de reais, está bloqueado para possíveis contingências ambientais.

Na noite de ontem, após o fechamento do mercado, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito da companhia de BBB+ para BBB-, e ainda colocou os ratings da empresa em observação, o que deve levar a novos rebaixamentos.

Outro risco está no próprio futuro da empresa. Privatizada há 20 anos, a Vale sempre foi tida como um exemplo de governança, apesar de reiterados episódios de diferentes governos de interferir nos rumos da companhia. Agora, a sombra da interferência política voltou.

FonteExame