Lula defende redução da maioridade penal para crimes hediondos, pede investigação de ministros do STF e diz ser responsável por dificuldades do governo

Por Arthur Stabile, Hadass Leventhal, Nayara Felizardo, Victória Cócolo, g1 — São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou nesta quinta-feira (15) em entrevista à Globo ser favorável à redução da maioridade penal no caso de crimes hediondos, como homicídio qualificado, latrocínio e estupro.

Atualmente, a maioridade é de 18 anos, e Lula defendeu que ela caia para 16 anos em algumas situações. O tema está em discussão no Congresso.

“O meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a pena. Para crimes hediondos. Eu sou a favor, sou a favor”, disse Lula à jornalista Renata Lo Prete.

 

Lula foi questionado ainda sobre suspeitas de envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro, dono do Master e atualmente preso. O presidente defendeu que os ministros citados sejam investigados.

“Nem os ministros da Suprema Corte estão isentos de passar para a sociedade a ideia de ética, a ideia de probidade. Ou seja, não é possível que apareçam na Suprema Corte tantas denúncias. A sociedade brasileira precisa que isso seja apurado. Eu já conversei três vezes com o presidente [do STF, Edson] Fachin, dizendo que é importante que ele, enquanto for presidente, faça a apuração que tiver que fazer e que julgue.”

 

Lula dá entrevista ao JN — Foto: Manuella Mello/Globo

Lula dá entrevista ao JN — Foto: Manuella Mello/Globo

A entrevista, conduzida pela jornalista Renata Lo Prete direto dos Estúdios Globo, no Rio, faz parte da cobertura do segundo turno das Eleições 2026. O programa foi transmitido pela TV Globo, pela GloboNews e pelo g1.

O que Lula disse na entrevista

 

  • Redução da maioridade penal: Lula defendeu reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal em casos de crimes hediondos.
  • Investigação de ministros do STF: Lula defendeu a apuração de denúncias contra ministros do Supremo e disse ter cobrado providências do presidente da Corte, Edson Fachin, três vezes.
  • Relação com os EUA: Lula disse que prefere negociar com Trump e que pode retaliar os EUA caso não haja acordo sobre as tarifas.
  • Responsabilidade pelo governo: Lula assumiu a responsabilidade pelas dificuldades e pela rejeição a seu governo, afirmando que não pode transferir a culpa a outras pessoas.
  • Facções como terroristas: Lula rejeitou a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA e afirmou ter proposto parceria ao governo Trump no combate ao crime organizado.
  • Segurança pública: Lula defendeu ampliar a atuação do governo federal no combate ao crime organizado por meio da PEC da Segurança Pública.
  • Economia: disse que o aumento da dívida pública preocupa e que o melhor caminho para equilibrar as contas do governo é fazer a economia crescer.
  • Endividamento da população: disse que os programas de renegociação lançados por seu governo prestam um “favor extraordinário” aos que têm dívidas e servem como um “recomeço” que ajuda a “reativar” a economia brasileira.
  • Bolsa Família: questionado sobre a decisão de anunciar um reajuste do Bolsa Família às vésperas da eleição, disse que não sabia que o benefício passou quase quatro anos sem correção de valor.
  • Reunião com Vorcaro: afirmou que é procurado por “todos os que estão com problema” e defendeu a atuação técnica do BC, que, segundo ele, levou à liquidação do Banco Master no fim do ano passado.

 

 

Lula se declarou favorável à redução da maioridade penal para 16 anos no caso de crimes hediondos.

“O meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a pena. Para crimes hediondos. Eu sou a favor, sou a favor”, disse Lula.

 

O presidente havia sido questionado sobre uma emenda apresentada pelo líder do PT no Senado, Camilo Santana, para a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Lula defendeu que a redução da maioridade penal seja discutida de forma separada à proposta de emenda.

“Eu sou favorável a reduzir para 16 [anos], mas não discutindo nessa PEC. Essa PEC não é para discutir isso. Primeiro você discute a PEC, aprova a PEC, e aí você pode discutir a maioridade penal ou não.”

 

Investigação de ministros do STF

 

O presidente foi questionado sobre suspeitas de envolvimento de ministros do STF com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, que está preso.

Lula afirmou que o ministro Alexandre de Moraes “era o mais implicado” com Vorcaro quando o caso foi debatido em uma sessão do Supremo em setembro e citou relações de outros magistrados com o ex-banqueiro.

“O [Dias] Toffoli também está implicado, o André Mendonça também está implicado e o Kássio [Nunes Marques] está implicado. Agora está todo mundo implicado”, disse.

Lula defendeu a investigação de todos os envolvidos no Caso Master, incluindo ministros do STF, e disse que “não é possível imaginar que a sociedade brasileira vai aceitar que não seja apurado tudo e sobre tudo e que não fique pedra sobre pedra e se puna quem precisar punir”.

O presidente afirmou que o país precisa aproveitar as revelações do caso Master para estabelecer regras éticas mais rígidas no Judiciário. Segundo ele, os episódios envolvendo ministros do Supremo deveriam servir para “moralizar muitas coisas no país”.

Lula defendeu a criação de regras de conduta mais rigorosas para integrantes da Corte. “Quem quiser ser rico não pode ser ministro da Suprema Corte”, afirmou.

Relação com os EUA

 

O presidente afirmou que poderá adotar medidas de reciprocidade comercial contra os Estados Unidos caso não consiga chegar a um acordo com o governo de Donald Trump sobre as tarifas impostas aos produtos brasileiros.

“Não quero fazer. Eu quero continuar negociando. Mas, se for necessário fazer, nós vamos fazer”, disse.

 

Lula afirmou que, apesar das tensões iniciais com o governo americano e dos tarifaços aplicados ao Brasil em 2025 e 2026, conseguiu estabelecer uma relação civilizada com Trump e que os dois já tiveram três conversas.

Segundo Lula, representantes dos dois governos continuaram negociando, e ele acredita que será possível chegar a um acordo.

O presidente destacou que o Brasil ampliou suas relações comerciais com outros países, apesar da queda de 9% no comércio com os Estados Unidos.

Responsabilidade pelo governo

 

Lula assumiu a responsabilidade por dificuldades enfrentadas pelo seu governo. Questionado sobre o que teria feito de maneira diferente, o presidente afirmou que não poderia atribuir a culpa a outras pessoas.

“Se eu não conseguir ser compreendido pela sociedade brasileira sobre o que o governo faz, eu não posso ficar jogando a culpa em ninguém. Eu tenho que jogar a culpa em mim”, disse.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui