Dos perrengues na infância à caça pela terceira taça de Libertadores: falamos com Pará, líder do Santos

Quase dez anos depois, Pará pode escrever mais uma vez o seu nome na história do Santos. Campeão da Libertadores em 2011, o lateral-direito vive novamente a expectativa de levantar a taça da competição continental. No próximo sábado, o Peixe disputa a final contra o Palmeiras, no Maracanã.

Antes da final, Pará atendeu a reportagem do ge e passou a carreira a limpo. Desde quando praticamente morava em uma guarita em Santo André até ter a possibilidade de guiar o Santos ao tetra da Libertadores e conquistar seu terceiro título do torneio sul-americano.

– Vim para fazer um teste no São Paulo, mas não tive a oportunidade, porque o rapaz que me trouxe da minha cidade teve de voltar para lá com um problema de saúde. Fiquei treinando só. Tive a oportunidade de conhecer uma escolinha chamada Barcelona. Dormi na guarita, porque a escolinha lá não tinha alojamento na época. O presidente me disse que não tinha estrutura, não tinha alojamento, mas que eu podia dormir na guarita. E eu não pensei duas vezes. Estava atrás do meu sonho – disse Pará.

Pará faz trabalho em campo no Santos — Foto: Ivan Storti / Santos FC

Pará faz trabalho em campo no Santos — Foto: Ivan Storti / Santos FC

Pará é um dos dois remanescentes do atual elenco do Santos que esteve presente na conquista do tri, em 2011 – o goleiro Vladimir é o outro. Ele participou de 10 dos 14 jogos daquela campanha e aproveitou para comparar as duas trajetórias.

– É difícil. Em 2011, tínhamos um time que quase todos os jogadores participaram de seleção brasileira. Tinha o Ganso, o Neymar, o Elano, o Edu Dracena, então tínhamos atletas que estavam em quase todas as convocações. Era uma equipe forte. Não preciso nem estar aqui falando. Hoje temos uma equipe boa, forte. Não temos um destaque individual, apesar de termos o Soteldo e o Marinho, que fazem a diferença e dão o desafogo.

Se conquistar o título pelo Santos, Pará pode entrar na seleta lista de brasileiros com mais títulos de Libertadores. Além de fazer parte do elenco em 2011, o lateral também conquistou o troféu em 2019, quando foi titular em todos os jogos da fase de grupos pelo Flamengo – ele se transferiu para o Peixe no meio da campanha.

– Não estou conseguindo dormir direito pensando nessa final. Fico muito ansioso com as coisas, mas tenho de manter a tranquilidade. Converso bastante com a minha família para que eu leve de uma maneira natural até chegar o dia 30. Às vezes a ficha nem caiu ainda. Só de imaginar disputar mais uma final de Libertadores. Um campeonato que todo grande atleta sonha em jogar. E eu tendo esse privilégio de disputar mais uma.

Pará (à direita, com faixa branca na cabeça), na comemoração do Santos do título da Libertadores de 2011 — Foto: Divulgação/Santos FC

Pará (à direita, com faixa branca na cabeça), na comemoração do Santos do título da Libertadores de 2011 — Foto: Divulgação/Santos FC

Pará também aproveitou para usar um lema do Santos na busca pelo tetra, o “4% é muito”. O veterano explicou a origem do termo e negou o rótulo de que o Peixe seja o azarão na decisão.

– Escutamos um pouco da imprensa e sempre nos colocamos como azarão. Deram esses 4%. Colocamos isso na cabeça que 4% é muito. Lutamos em cima desses 4% e as coisas estão acontecendo da melhor maneira possível. Eu tinha bem menos, porque vinha em busca de um sonho. Eu não tinha certeza que eu ia virar um jogador profissional. Acho que não tinha nem 1%. Corri atrás dos meus objetivos e do meu sonho. E graças a Deus com muita força de vontade cheguei onde cheguei.

Antes da decisão contra o Palmeiras, o Santos ainda enfrenta o Goiás, neste domingo, e o Atlético-MG, na terça, pelo Brasileirão. O elenco do Peixe deve chegar ao Rio de Janeiro na quarta-feira.

Mais respostas de Pará

 

Análise do Palmeiras

– Difícil. O Palmeiras tem um elenco muito qualificado, jogadores de seleção, um treinador que está mostrando a qualidade. A gente respeita, mas não teme. Temos uma equipe forte, mas sabemos como é difícil. No Maracanã, onde todo jogador sonha em jogar. Estamos disputando uma final de Libertadores. Esperamos estar numa tarde feliz.

Trajetória no Santos

– Em 2011, eu era um garoto. Tinha acabado de sair do Santo André. Saí em 2008, fui para o Santos. Em 2009 não tinha tanta oportunidade. Aí tive sequência em 2010, tinha aquele timaço. Ganhamos praticamente tudo. E a sequência foi em 2011. Tivemos êxito, ganhamos o Paulista e a Libertadores. O grupo era bem jovem naquela época. O que mudou mesmo acredito que tenha sido a experiência.

– Meu nome está gravado na história do clube. Tenho um carinho, um respeito pelo torcedor, pelos dirigentes. Eles me olham como uma referência. Eu fico orgulhoso de fazer parte do clube, de estar conquistando os nossos objetivos. Em relação a ser capitão, foi quando o Jesualdo teve a oportunidade de vir trabalhar aqui. Ele disse que tinha cinco capitães e ele me incluiu nessa lista. Acredito que ele deva ter acompanhado um pouco da minha trajetória no Santos. Procuramos conversar bastante com os mais jovens para passar a nossa experiência para eles.

Finais com o Santos

– Eu já disputei várias finais com o Santos. Tive o privilégio de ganhar praticamente todas. Perdi bem poucas. Então, quando acabou o jogo, eu falei que era mais um passo que tínhamos de dar. A gente vem escrevendo essa história há bastante tempo e falta mais um capítulo. Tenho certeza que se Deus quiser vamos terminar essa história com um final feliz.

– Ficha ainda não caiu. Estamos tentando buscar esse título tão importante. Para mim, nem se fala. Vai ser minha terceira conquista, se Deus permitir. Vou ficar muito feliz. Minha família vai ficar muito feliz e eu vou ficar eternamente grato ao Santos por me dar a oportunidade de disputar mais uma final com essa camisa tão consagrada. Mas temos de ter os pés no chão. Estamos apenas na final. O Palmeiras merece respeito. Temos de saber os pontos fortes dele para não sermos surpreendidos.

Liderança “dividida” com Alison

– Ele tem o poder da palavra no vestiário. Se não me engano é quem está há mais tempo no clube. Ele tem esse poder, essa voz ativa no vestiário. Procuramos escutar o que ele quer falar. É um cara que sofreu muito com lesão. Temos ele como exemplo, como capitão mesmo. Esperamos que ele possa se recuperar o mais rápido possível da Covid-19 para levantar esse título tão sonhado com todos nós.

“Família” Santos, o mantra de Cuca

– Desde quando o Cuca chegou, a primeira palavra que ele falou foi família. Disse que íamos criar uma família. A nossa família hoje cresceu, ficou forte, se fortaleceu cada vez mais. Sabemos como é difícil. Íamos sempre fazendo isso, passo a passo. Hoje defino nosso grupo como uma verdadeira família que está atrás dos nossos sonhos.

– O próprio Felipe Jonatan é um tio chato, mas é um menino gente boa. Gosto muito dele. Marinho também é um cara que se não der um puxão de orelha está sempre… Mas é um cara muito do bem. Estamos sempre em grupo, todo mundo se repeita. Na hora de levar as coisas a sério, todo mundo leva.

Pará conversa com o técnico Cuca, do Santos — Foto: Ivan Storti / Santos Fc

Pará conversa com o técnico Cuca, do Santos — Foto: Ivan Storti / Santos Fc

Elenco recheado de garotos

– Se não me engano nossa equipe é a mais jovem da competição. Estamos jogando com 60, 70% dos meninos da base. Estamos fazendo história. Esperamos cravar nosso nome na história do clube cada vez mais.