Defesa de delegado preso em MS diz que dinheiro atribuído a propina para ‘não andar investigação’ é de herança

A defesa do delegado Márcio Shiro Obara, preso desde quinta-feira (18), em Campo Grande, suspeito de integrar grupo que teria feito ao menos três execuções em Mato Grosso do Sul, diz que o dinheiro atribuído como recebimento de propina é na verdade herança da mãe. Segundo o advogado Ronaldo Franco, já foi pedida a movimentação bancária relacionada aos R$ 100 mil e na segunda-feira (22) deve ser pedido o habeas corpus para o policial.

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que o delegado teria recebido R$ 100 mil para ‘não andar com investigações’ relacionadas a morte de Ilson de Figueiredo, de 62 anos, ocorrida em 11 de junho de 2019, em Campo Grande.

As defesas de outros presos na terceira fase da operação Omertá, que investiga o suposto grupo criminoso também se movimentam. Na madrugada de sexta-feira (19), o Tribunal de Justiça revogou a prisão de três suspeitos, a pedido dos advogados: do conselheiro do Tribunal de Contas e ex-deputado estadual Jerson Domingos, de Benevides Pereira e de Cinthya Name Belli.

Cinthya é sobrinha e funcionária de Jamil Name, preso no Presídio Federal de Mossoró (RN) e funcionária dele responsável pela área financeira. Benevides seria o braço direito dela. Ele foi solto, mas com medidas cautelares.

Jamil Name é apontado pelo Gaeco como líder do grupo. O Supremo Tribunal Federal já autorizou a transferência dele para Campo Grande. No entanto, decisão da Justiça estadual de Mato Grosso do Sul de sexta-feira diz que Jamil Name deve permanecer no sistema prisional federal. O pedido do Ministério Público Estadual acatado pelo juiz da 1º Vara de Execução Penal, Mário José Esbalqueiro Júnior, baseou-se na periculosidade concreta do acusado, diversos crimes em apuração, liderança de organização criminosa e tentativa de execução para autoridades do estado.

Ainda de acordo com o juiz, outros dois novos fatos aconteceram para justificar esse pedido, sendo um deles a Operação Omertà que está 3ª fase e que comprovou a ligação da organização criminosa de Jamil Name em Campo Grande com a organização criminosa de Fahd Jamil, em Ponta Porã. Conforme o magistrado, os dois agiam em conjunto onde comercializam armas e cometiam crimes de pistolagem.

O outro ponto foi o bilhete encontrado na cela de um preso do Presídio Federal de Mossoró, que fica perto das celas individuais de Jamil Name e Jamil Name Filho. Segundo o juiz, as anotações traz riquezas de detalhes de parentes, advogados, e uma conversa em que pai e filho teriam oferecido dinheiro para uma terceira pessoa para assumir tudo, um indicativo para prejudicar as investigações.

O advogado de Jamil Name, Tiago Bunning Mendes, diz que essa decisão de primeira instância, de certa forma fere com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) do ministro Marco Aurélio de Mello que autorizou a transferência de Jamil Name para Campo Grande, justamente por conta das condições de saúde dele. Bunning ainda informou que irá recorrer.

Dois grupos

Conforme o Gaeco, as investigações sobre as execuções revelaram a suposta existência de dois grupos que fariam ações conjuntas antes e após os crimes. O grupo de Fhad Jamil e do filho Flávio Correia Jamil Georges, ambos foragidos e o outro de Jamil e do filho Jamil Name Filho.

O grupo de Fhad e Flávio está relacionado a prática de diversos crimes como tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro e homicídios. Eles seriam os responsáveis por dar suporte com remessa de armas de fogo, preparo e execução de homicídios para outra organização: a de Jamil Name e Jamil Name Filho, ambos presos desde setembro de 2019 no Presídio Federal de Mossoró (RN).

Para a acusação, os dois grupos se ajudavam nos crimes e na fuga dos envolvidos. A última morte atribuída ao grupo de Jamil Name é do estudante de Direito Matheus Zavier, de 19 anos, na frente da casa dele, na capital. Ele foi executado por engano. O alvo era o pai dele, Paulo Roberto Xavier.

Após a morte do rapaz, a Polícia Civil montou uma força-tarefa com vários delegados para investigar as execuções. Um mês depois da morte do estudante, no dia 19 de maio, policiais da Delegacia de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras) e do Batalhão de Choque da Polícia Militar apreenderam um arsenal com um guarda municipal, que está preso desde então.

Foram apreendidos 18 fuzis de calibre 762 e 556, espingarda de calibre 12, carabina de calibre 22, além de 33 carregadores e quase 700 munições. Tudo estava em uma residência e seria levado para a casa de Jamil Name.

Operações

Em setembro, na primeira fase da Omertá, Jamil Name e Jamil Name filho foram presos junto com outras várias pessoas, entre elas policiais civis. O Supremo Tribunal Federal já autorizou a transferência de Name pai para a Penitenciária Federal de Campo Grande.