90,9% dos brasileiros dizem que preço dos produtos está aumentando muito

© Sérgio Lima - Arroz em prateleira de supermercado de Brasília, durante a alta dos preços

Pesquisa CNT/MDA divulgada na segunda-feira (26) mostrou que, apesar de a inflação estar abaixo da meta do governo, 90,9% da população brasileira considera que o preço dos produtos está aumentando muito.

Dos itens constados como mais caros pelos entrevistados, que escolheram duas respostas, os principais foram: alimentos e bebidas (95,6%) e contas mensais (40,6%). Em terceiro lugar, o combustível, com 17,8%, e em quarto as farmácias e os serviços de saúde, com 14,1%.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial do Brasil, ficou em 0,64% em setembro, maior resultado para o mês desde 2003 (0,78%). No acumulado em 2020, é de 1,34%.

Tal resultado revelou que a inflação segue abaixo da meta central do governo para o ano, que é de 4%. Nos últimos 12 meses, no entanto, o valor acumulado é de 3,14%, acima dos 2,44% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. O valor portanto está acima do piso para 2020, que é de 2,5%.

De acordo com o economista Igor Macedo de Lucena, da Royal Institute of International Affairs, há um aumento generalizado de preços, e alguns grupos de produtos são sentidos por toda a população: “Os índices que mais variaram foram as partes de alimentos e bebidas, que basicamente permeiam toda a cadeia de consumidores, desde a classe A até a D.” Mas ele ressalta que a variação desses itens não reflete toda a cadeia produtiva brasileira: “Por isso, os consumidores veem nesses produtos uma variação grande de preços e isso não se reflete no IPCA.”

Segundo Lucena, não podemos considerar que o aumento desses itens foi considerado sistêmico, a ponto de o Banco Central ser obrigado a subir taxas de juros: “O que estamos analisando são problemas de aumento de preço pontuais, baseados em uma grande diferença do que é ofertado e o que é demandado.”

Igor explica que produtos que são commodities, como soja e café, tiveram alta na demanda: “Apesar de a gente estar com problemas de lockdown ainda na Europa e um menor consumo nos EUA, a China e parte do Sudeste Asiático vêm aumentando seus estoques de alimentos. E o Brasil como um grande produtor está exportando mais para aquela região. Atrelado ao dólar mais alto, isso incentiva que os exportadores de alimentos peguem grande parte de sua produção e façam as suas exportações.”

Mas segundo o economista, o cenário pode melhorar, ao menos parcialmente, no ano que vem: “No começo de 2021 nós vamos ter novas safras de colheitas e a partir daí, a tendência é que esses preços se normalizem e caiam também no mercado interno.”

INFLAÇÃO TEM MAIS IMPACTO NOS MAIS POBRES

O IPEA (Instituto de Pesquisa Aplicada) mostrou no dia 14 de outubro que a inflação para a população mais pobre é três vezes maior em comparação com os ricos. O indicador revelou que a inflação para os mais pobres variou 0,98% em setembro. Por outro lado, a parcela mais rica da população registrou variação de 0,29% no preço.

Dos itens que apresentaram uma variação na inflação para parcela mais pobre, o maior resultado se deu nos alimentos e bebidas, ponto que corresponde a quase 75% da variação total. Dessa categoria, as maiores altas foram do arroz (18%), óleo (28%) e leite (6%). Outros fatores que prejudicaram os mais pobres foram o aumento do preço dos materiais de limpeza (1,4%) e do botijão de gás (1,6%).

Com relação aos mais ricos, o prejuízo ficou mais evidente no aumento da gasolina e alimentos (2%). No entanto, outros itens tiveram baixa nos preços. Entre estes, estão os planos de saúde (-2,3%) e mensalidades de diversos cursos (-1,5%) e informática (-1,6%).