‘Um bebê sem respirar embaixo dessa lama’, diz mulher que busca criança após tragédia em Petrópolis

RIO — Passadas quase 12 horas do temporal que causou uma tragédia em Petrópolis, Região Serrana do Rio, e que até agora já causou a morte de 38 pessoas, segundo a Defesa Civil estadual, o cenário é de destruição e desespero de famílias que ainda procuram por parentes desaparecidos, entre eles, muitas crianças. Nesta quarta-feira, uma mãe tentava encontrar a filha, de 17 anos, cavando com uma enxada nas mãos. A todo momento ela chamava pela jovem. Em outro ponto, Adalton Oliveira gritava pelo nome da filha e tentava cavar com as mãos para tentar chegar até o ponto onde ele acredita que está a menina: “Ela está aqui, está aqui. Cadê a minha filha?”, clamava o homem, agachado, aos prantos.

Incansável, Adalton ajuda nas buscas feitas na área onde ficava o bar da família. Ali estão Eliane, de 44 anos, e Ana Clara, de 7. Sem informações sobre elas, o comerciante já convive com o luto: Lucas, de 21 anos, outro filho do casal, foi levado pela enxurrada e encontrado morto:

— Minha esposa pediu para eu ir lá em cima buscar o Lucas com medo da barreira cair. Quando cheguei, peguei ele e ouvi os estalos da casa. Nós ouvimos a barreira e fomos pular para o sentido contrário, mas ele escorregou e foi levado. Aí eu desci para ver minha filha e esposa e vi que a barreira tinha as levado também — contou ele, bastante emocionado.

No Morro da Oficina, ao menos cinco corpos já foram resgatados por equipes do Corpo de Bombeiros que trabalham desde a madrugada. Nesta região, no bairro Alto da Serra, estima-se que cerca de 80 casas tenham sido afetadas. A dificuldade dos resgates é tanta que um dos militares ficou preso na lama. Dos 35 corpos, 29 foram resgatados pelos bombeiros. Até as 7h30, 16 pessoas foram tiradas com vida do desastre.

Bruno Carvalho consegue ver de trás do cordão de segurança sua casa onde estava sua filha de 1 ano, sogra e primos. Ele busca informações da família apegado na esperança. Morador da quinta casa a esquerda, ele já encontrou a bolinha rosa de sua filha entre os destroços. O brinquedo está a mais de 30 metros de distância do quarto onde a menina dormia.

— Única coisa que ouvimos é que tinha havido um desabamento, mas só tive a dimensão quando cheguei aqui — disse ele, bastante emocionado.

Na área em que Gisele Arcaminate, mãe da adolescente Maria Eduarda, faz as buscas pela filha há apenas familiares e amigos. Ela, que tem o nome da filha tatuado, a todo momento grita “Duda”, na esperança de uma resposta. Com uma enxada nas mãos, ela ajuda, junto com outros moradores voluntários, a tentar resgatar a jovem sob a lama.

— Um bebê sem respirar embaixo dessa lama, você consegue? Eu já estou perdendo as esperanças — disse Gisele, sobre a menina de 1 ano desaparecida, filha de Bruno e parente dela, durante o resgate.

O cenário foi descrito por um oficial bombeiro como uma “catástrofe”. Mais militares devem chegar nas próximas horas para ajudar na buscas por vítimas no Morro da Oficina. A enfermeira Teresa Lima ficou presa por quase três horas na rodoviária da cidade e só chegou em casa às 4h.

— Estava no trabalho, em Itaipava, mas lá não choveu. Minha filha me ligou para dizer que estava caindo tudo aqui. Meu neto, de 8 anos, ficou preso no Colégio Municipal Vila Felipe e só saiu por volta das 21h.

Conhecido como Lampião, um homem que mora no Morro da Oficina conseguiu resgatar duas pessoas com vida, mas perdeu a mãe no desastre. Segundo ele, os bombeiros já localizaram o corpo de Maria das Graças, mas ainda não conseguiram removê-lo dos escombros. Ele conta que estava no trabalho no momento em que ligaram para perguntar se o filho estava com ele. A preocupação com a família foi instantânea.

— Me ligaram e vim correndo para cá. Quando cheguei, disseram até que meu filho tinha morrido. Fiquei sem chão. Um vizinho me disse que sabia onde ele estava e fomos resgatá-lo. Escutei muitos pedidos de socorro na hora que fui resgatar o meu filho, mas já estava ficando escuro, sem luz. Deve ter muita gente embaixo dos escombros. Deixei meu filho no posto de saúde — conta ele, que mora ali há 44 anos.

Muito emocionado, João Belisardo aguarda notícias de sua filha Michele Aparecida, de 33 anos, e Larissa Afonso, de 5 anos. Elas estavam em uma casa de três andares que desabou durante a chuva, por volta das 18h.

— Moro em outro bairro aqui de Petrópolis, e minha filha até 18h estava falando comigo. Mas depois parou. Minha neta tem 5 anos e minha filha fez 33 na última terça-feira. Era uma casa de três andares e tinha outros imóveis. Todo mundo que está aqui perdeu alguém — disse emocionado.

Bombeiros fazem o resgate de mais um corpo na manhã desta quarta Foto: Felipe Grinberg
Bombeiros fazem o resgate de mais um corpo na manhã desta quarta Foto: Felipe Grinberg

Com o amanhecer é possivel ver o tamanho da tragédia que atingiu o Morro da Oficina. Logo na entrada da Rua Frei Leão há somente três casas intactas. O restante sofreu algum dano ou está completamente destruída. A cada passo uma parte da historia de cada uma dessas famílias. Quem continua caminhando pela rua precisa escolher com cuidado onde pisar pois é dificil distinguir o que é lama ou cimento.

— Estamos a caminho de Petrópolis. Temos lá um caminhão frigorífico. Nossa preocupação é como vamos manter esses corpos após a necrópsia. Não dá para eles ficarem expostos. No posto de perícia na cidade tem um caminhão frigorífico. No decorrer dos resgates vamos preparar mais, se precisar. Estou subindo para preparar e administrar as perícias e necrópsias. E se for necessário vamos levar mais peritos — explica Denise Rivera, assessora técnica especial de assuntos de perícia da Polícia Civil.

Familiares e bombeiros buscam informações sobre desparecidos Foto: Felipe Grinberg
Familiares e bombeiros buscam informações sobre desparecidos Foto: Felipe Grinberg

Bombeiros trabalham com ‘inúmeros desaparecidos’

De acordo com o secretário da Defesa Civil e Comandante Geral do Corpo de Bombeiros, coronel Leandro Monteiro, só no Morro da Oficial entre 30 e 50 casas foram atingidas. O militar apontou “inúmeros desaparecidos”, sem especificar quantos de fato estão sumidos. No entanto, a corporação trabalha com a possibilidade de dezenas.

— São muitos desaparecidos, não existe essa número preciso. Estamos concentrando vários esforços para achar essas vítimas. A partir de agora, contamos com 400 militares. São vários pontos da cidade que chamaram os bombeiros. O foco principal de solicitação foi no Morro da Oficina. Só conseguimos chegar lá à 0h30. Tem várias informações desencontradas. Uns moradores falam em 50 casas atingidas, outros, 30. Estamos lá desde quando chegamos, resgatamos uma pessoa com vida.

A mil quilômetros:  Quadrilha de blogueira presa usava imóvel em Copacabana como central de operações para golpes em SC

A todo momento mais familiares de possíveis vítimas chegam ao local procurando informação. Muitos levam aos bombeiros informações de desaparecidos. Cães farejadores estão ajudando nas buscas. Mas estalos de pedras tem provocado a paralisação dos trabalhos. Os escombros mostram casas de até três andares destruídas e marcas de terra de cerca de um metro e meio nas paredes. Até o momento, as equipes da Defesa Civil contabilizam 229 registros, dos quais 189 são por deslizamentos.

— A situação é de uma tragédia. O Corpo de Bombeiros tem dificuldade de acessar os locais mais críticos porque há muitos carros, ônibus e abandonados nas ruas. São vários pontos de deslizamento — disse Monteiro, anunciando que será montado um hospital de campanha.

Em seis horas, o acumulado pluviométrico atingiu 259 milímetros — acima da média esperada para o mês de fevereiro, de 238,2 milímetros.