Trump convoca deputados de Michigan para tentar convencê-los a mudar resultado das urnas

WASHINGTON – A poucos dias do prazo final para a certificação dos resultados da eleição presidencial nos EUA, no dia 8 de dezembro, Donald Trump sinaliza que vai intensificar sua estratégia de questionar os números das urnas, que deram a vitória a Joe Biden. Mesmo que precise se envolver diretamente no processo e buscar maneiras, teoricamente dentro da lei, para mudar o resultado.

Segundo o New York Times, o presidente convidou alguns deputados estaduais do Michigan, onde ele perdeu para Biden, para uma conversa na Casa Branca nesta sexta-feira. Muito embora o tema da reunião não tenha sido revelado, suspeita-se que vá tentar convencer os parlamentares a embarcar em seu plano para mudar os eleitores no Colégio Eleitoral, colocando no lugar pessoas que ignorem os resultados das urnas e deem seus votos para o presidente.

No caso do Michigan, contudo, suas chances de sucesso são pequenas: em entrevista ao jornal local Bridge Michigan, o líder do Senado estadual, o republicano Mike Shirkey, disse sucintamente que “isso não iria acontecer”. Foi Shirkey quem recebeu o convite para a reunião na Casa Branca, e ainda não se sabe quantos parlamentares viajarão para Washington. Líderes republicanos em outros estados, como na Geórgia, também se mostraram contra a manobra.

“Qualquer mudança nas leis eleitorais da Geórgia, feitas em uma sessão especial, não impactarão uma eleição em andamento e vai apenas resultado em um litígio sem fim”, disse o governador do estado, o republicano Brian Kemp, em comunicado.

A ideia de alterar “à força” os eleitores tem uma argumentação legal vista como extremamente frágil por especialistas. Cabe às legislaturas estaduais escolher como os delegados que compõem o Colégio Eleitoral serão definidos: em todos os estados ficou estabelecido que a única forma para tal é o voto direto da população.

Mas há uma espécie de brecha: segundo o Ato de Contagem Eleitoral, criado no século XIX, caso os eleitores não consigam escolher um vencedor na disputa, será declarada uma “eleição fracassada”, e os deputados estaduais vão escolher os delegados. A lei é ambígua ao definir o que seria uma “eleição fracassada”, e é nesse ponto que a estratégia do presidente pode estar focada agora.

Mais do que tentar reverter os resultados, as dezenas de processos iniciados na Justiça parecem ter como objetivo central atrasar a contagem dos votos e, por consequência, a definição dos resultados. Caso um ou mais estados perca o prazo, o presidente pode alegar que ali houve uma “eleição fracassada”, potencialmente abrindo caminho para indicar seus próprios representantes no Colégio Eleitoral. Os 538 delegados se reunirão no dia 14 de dezembro, com a confirmação final do vencedor feita pelo Congresso no dia 6 de janeiro.

Telefonemas

Na quarta-feira, Trump deixou transparecer que pretende se envolver pessoalmente nas ações para tumultuar o processo: ele telefonou para uma das integrantes de uma comissão responsável por confirmar os resultados no condado de Wayne, no Michigan, onde perdeu para Joe Biden.

Na véspera, dois dos quatro membros da comissão se negaram a ratificar os números das urnas no condado, na prática impedindo que o democrata fosse declarado o vencedor no estado. Depois de intensa pressão, eles votaram pela confirmação dos resultados, mas, um dia depois, tentaram alterar na Justiça suas posições, o que foi prontamente negado pelas autoridades estaduais.

Logo depois de anunciar o pedido na Justiça, Monica Palmer, uma das integrantes da comissão, recebeu o telefonema de  Trump — em entrevista ao Washington Post, ela disse que a preocupação do presidente era “com sua segurança”, e afirmou que os dois fizeram “comentários gerais sobre diferentes estados”, mas sem discutir os detalhes no condado de Wayne. O presidente também falou com o outro integrante republicano da comissão, que não quis falar sobre o que os dois conversaram.