“Sou muito mais quieta, mais calada e mais envergonhada”, diz Anitta sobre sua versão Larissa

Top e calça, Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)

Top e calça, Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)

Você pode não gostar, mas não consegue parar de ver.” Talvez essa frase explique ao menos um pouco o fenômeno Anitta. Ela foi dita por um dos entrevistados para a série documental Made in Honório (Netflix), lançada em 2020, sobre a maior sensação da música pop brasileira dos últimos tempos. Idolatrada pelos milhões de fãs, a quem ela se refere como “anitters”, a cantora, dançarina e empresária é patrulhada por uma legião de haters que não deixa de acompanhar cada rebolado e também cada uma de suas conquistas. “Leio eventualmente (críticas e agressões). Não sou uma stalker de mim mesma, não. E não recomendo. Já lidei mal com o ódio alheio. Hoje, penso que no fundo, todo hater é fã pedindo atenção.”

Para entender o que levou Anitta a prosperar dessa forma, é preciso entender os percalços do trajeto que começou na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, até Nova York, na manhã em que a estrela pop conversou coma Vogue, por meio de uma chamada de vídeo, feita no estúdio em que fotografava o ensaio que ilustra a entrevista. Um caminho que passa por superações pessoais, recordes, músicas em vários idiomas, entrevistas em programas estrangeiros, parcerias com artistas bem situados no cenário global – como a participação no álbum deluxe “Attention”, de Miley Cyrus –, a amizade com Mariah Carey, desde que as duas se encontraram por acaso numa loja de uma estação de esqui nos Estados Unidos.

No dia da entrevista, Anitta estava às voltas com a repercussão de ser a primeira brasileira a chegar à posição número 1 do Spotify Global com “Envolver”, ainda muito irritada com a chamada da capa da Nylon, revista distribuída no festival de música Coachella, onde ela se apresentaria no palco principal, e já de olho no que viria pela frente: o lançamento do seu quinto álbum, Versions of Me, com canções em português, inglês e espanhol.

Vestido, sutiã e sapatos, tudo Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)
Vestido, sutiã e sapatos, tudo Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)

De roupão branco e com longos apliques no cabelo, à medida que a conversa flui, ela parece se despir emocionalmente para falar sobre a personagem que criou para vencer no mercado da música e também para lidar com o preço alto que a fama cobra de uma artista mulher ousada, ambiciosa, sexualmente bem resolvida. A voz fica mais doce e o sorriso mais largo quando “tira a capa de Anitta”, como ela mesmo define, e fala de Larissa, a carioca de Honório Gurgel.

“É um escudo, sou bem diferente na vida real. Quando estou de Larissa, sou bem ao contrário. Precisei criar essa capa que faz, que acontece, que fala. E que fala muitas vezes mais do que eu realmente faço, justamente para provocar a sociedade a conversar sobre o assunto, para que passem a aceitar pessoas que são diferentes. Não para criar polêmica, mas para mostrar a controvérsia, para entenderem que uma pessoa pode ter uma vida aberta, doida, uma vida do jeito que ela quiser ter. Acho que no Brasil já abri muitas portas para as mulheres.” E como é a Larissa na intimidade? “Sou muito mais quieta, mais calada e mais envergonhada, embora ninguém acredite nisso.”

Anitta usa Vestido Conner Ives e botas JimmyChoo. Pulseiras Chrome Hearts e braceletes Patricia VonMusulin (Foto: Zee Nunes)

Anitta usa Vestido Conner Ives e botas JimmyChoo. Pulseiras Chrome Hearts e braceletes Patricia VonMusulin (Foto: Zee Nunes)

Com a carreira assumindo proporções globais, parece difícil dar descanso à fantasia de poderosa. Se no Brasil ela acredita ter derrubado algumas barreiras sobre o que uma mulher pode ou não pode vestir, falar, cantar, fora do país ainda há muito trabalho pela frente. “Parece que as pessoas são mais abertas, mas não são. Eu retomei o discurso do começo da minha carreira, de ser mais louca, de ser mais desbocada, porque essa porta ainda precisa ser aberta para as mulheres, principalmente no mercado latino.”

Por saber exatamente a imagem que quer passar e muito tranquila sobre o que pensa em relação à vida, Anitta subiu nas tamancas quando deu de cara com a chamada da revista Nylon: “Na América do Norte, as pessoas só querem parecer descoladas. No Brasil, todo mundo quer é se divertir e transar. Eu quero trazer essa energia para cá”. A cantora conta que ficou arrasada, chorou e concorda com as críticas que recebeu, porque sabe que as pessoas querem ser bem representadas. “Não me arrependo do que eu disse, mas de reduzirem o que foi dito a um pensamento sobre o país. Tô falando da minha personalidade, tô falando do ambiente em que vivo, de sair, de dançar até o chão, desse ambiente, e não da sociedade como um todo. No contexto que foi colocado, concordo com todas as críticas, tanto que fiquei revoltadíssima.” Anitta não deixou barato, e a Nylon acabou trazendo outra versão de capa sem a frase da discórdia.

Sapatos Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)
Sapatos Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)

Não foi a primeira e não será a última vez que a atitude incomodará os haters de plantão. Os convidados de seu aniversário, celebrado em Las Vegas no fim de março, receberam cinco orientações sobre a festa. A quinta delas dizia o seguinte: “Se você é solteiro, não vá embora sem encontrar alguém para fazer sexo depois (prometi a um monte de amigos que seria a noite de sorte deles)”. Anitta foi criticada por supostamente oferecer suas amigas brasileiras como prêmio. “Foi o contrário, elas queriam saber se ia ter algum bofe gato gringo. E eu falei: ‘Vai ter’. E era uma brincadeira, óbvio. É tudo para levar no bom humor. Não tem que generalizar tudo que se fala. Tudo vira um problema. As pessoas têm que ser um pouco mais leves na hora de interpretar algumas situações.”

Mas a vida pessoal da cantora reverbera tanto quanto suas músicas, e ela trata de forma natural, típico de uma geração em que privado e público se misturam cada vez mais na vitrine das redes sociais. A bissexualidade, por exemplo, é conhecida por sua família desde quando beijou uma garota aos 13 anos. Anitta se diz atraída por outras mulheres, mas nunca se apaixonou por uma. “Ainda não”, diz sorrindo. “Não tenho vontade de ter relacionamento com mulher, mas também não gosto de dizer que nunca… vai que um dia.”

Anitta usa Bodysuit Balenciaga. Headpiece de plumas vintage Jessica Jade, cinto e braceletes, ambos Patricia VonMusulin. Argolas Jennifer Fisher (Foto: Zee Nunes)
Anitta usa Bodysuit Balenciaga. Headpiece de plumas vintage Jessica Jade, cinto e braceletes, ambos Patricia VonMusulin. Argolas Jennifer Fisher (Foto: Zee Nunes)

No momento, a preferência é por relacionamentos abertos. “Lealdade não tem nada a ver com traição. Lealdade tem a ver com consideração, com empatia, com você fazer a pessoa se sentir bem, com você respeitar aquela pessoa, não ser abusivo. Se a pessoa fizer com que eu me sinta assim, eu não tô nem aí se ela transou com outra. Nem me conta, faz o que quiser e volta. Se eu continuar me sentindo amada, desejada, especial, não tô nem aí para o que a pessoa faz quando não estou presente. A gota d’água para mim é me expor, prejudicar meu trabalho, não torcer por mim.”

Anitta usa body e saia,ambos Rick Owens. Braceletes à direita, Patricia VonMusulin, à esquerda, Dinosaur Designs. Óculos Chrome Hearts (Foto: Zee Nunes)
Anitta usa body e saia,ambos Rick Owens. Braceletes à direita, Patricia VonMusulin, à esquerda, Dinosaur Designs. Óculos Chrome Hearts (Foto: Zee Nunes)

Seus romances estão sempre entre os assuntos mais comentados e ela sabe que o preço a pagar é muito alto, mas foca nas mudanças que acredita provocar. “Recebo milhares de mensagens de gente que diz que teve coragem de ficar com todo mundo, de ser solteira mesmo, mas achava que tinha que namorar para ser valorizada. A sociedade tem muito isso, se você não tem marido, não tem namorado, você não é uma mulher boa. E se eu não quiser ter marido? E se eu não quiser ter filhos? E daí?”

A cantora, que hoje se define feminista, teve uma educação conservadora e diz que cresceu sem ter noção dos problemas entranhados na sociedade, como machismo e racismo. “Eu achava que esse papo de ser mais difícil para a mulher não existia. Não tive uma criação com diferenças, para mim tudo era uma coisa só.” Anitta conta que as situações que passou a viver já na carreira mostraram o mundo cheio de preconceitos como ele é. “Eu sempre achei as minhas bailarinas lindas, com seus black powers. Ouvi de uma pessoa lá no começo que eu era muito esperta porque colocava as ‘neguinhas’ para poder parecer a mais bonita. Fiquei sem entender.” Percebeu que tinha menos respeito do que o seu irmão mesmo se tratando de sua carreira e passou a colecionar relatos de episódios de racismo vividos por seus colaboradores. “Comecei a entender que o racismo existe, que o machismo existe, a homofobia existe. Eu quero lutar contra isso.”

Anitta usa Top, saia e hotpants, tudo Gucci. Sutiã Skims, brincos Vivienne Westwood e sandálias Gianvito Rossi (Foto: Zee Nunes)
Anitta usa Top, saia e hotpants, tudo Gucci. Sutiã Skims, brincos Vivienne Westwood e sandálias Gianvito Rossi (Foto: Zee Nunes)

Uma das maneiras de se engajar, sem dúvida, é por meio de seus posicionamentos políticos e de sua atitude nas redes sociais. Anitta bate de frente com parlamentares e ministros. “Só não vale falar do meu cu porque este serve mais à sociedade do que você”, rebateu o ex-titular do Meio Ambiente Ricardo Salles, que se referiu a ela como “burrita”. Logo depois de sua apresentação mais do que aclamada no Coachella, foi a vez de bloquear o presidente Jair Bolsonaro. Para os seguidores, Anitta deu uma aula sobre a tentativa do presidente (ou de sua equipe) de usar um tuíte seu com propósito eleitoral. Vestida de verde e amarelo pelo estilista Roberto Cavalli, em sua entrada triunfal em cima de uma moto, ela usou a foto para defender que a “a bandeira do Brasil e as cores da bandeira pertencem aos brasileiros”, numa clara mensagem a grupos que sequestram os símbolos nacionais para defesa de seus ideais.

A política é mais um dos aprendizados que Anitta acumula nessa trajetória. Além do português, é fluente em inglês e espanhol, se vira em italiano e francês, conduz a própria carreira, faz parte do conselho de administração do Nubank e é chefe de criatividade da Beats, marca da Ambev, embaixadora de várias marcas. Para entender mais do universo que, hoje, faz mais parte do cotidiano do que o futebol, a cantora começou a fazer lives durante a pandemia com a apresentadora Gabriela Prioli. “Percebi que, assim como eu, muita gente não recebeu ou recebe educação política na escola ou durante a vida. Uni o útil ao agradável. Gostaria de entender mais sobre o assunto e, ao mesmo tempo, dividir conhecimento com todos que me seguem.”

Anitta usa Top e calça,ambos Loewe. Botas Jimmy Choo. Braceletes Letra, Dinosaur Designs e Jennifer Fisher. Brincos Jennifer Fisher (Foto: Zee Nunes)
Anitta usa Top e calça,ambos Loewe. Botas Jimmy Choo. Braceletes Letra, Dinosaur Designs e Jennifer Fisher. Brincos Jennifer Fisher (Foto: Zee Nunes)

Anitta fala com clareza sobre como se posiciona no espectro político e sobre as questões que entende que o país precisa encarar. “Me vejo na centro-esquerda. Acredito que o Estado tem um papel social fundamental num país ainda tão desigual como o Brasil. Investimentos em saúde e educação, por exemplo, são imprescindíveis. Acredito também em um ambiente de liberdade em que as pessoas possam não só se expressar e viver da forma como desejam, mas empreender sem entraves desnecessários. E, claro, estou distante de qualquer proposta autoritária, seja ela de esquerda ou de direita.”

Álbum novo, palco principal do Coachella, artista mais ouvida do Spotify Brasil, primeiro lugar no top 50 global da plataforma, primeiro lugar na Billboard Global (excluindo os EUA), única brasileira a ter um estátua de cera no museu Madame Tussauds. “É muito louco, às vezes eu fico sem acreditar. Mas só ressalta a ideia de que esse desafio que eu tracei para mim ia durar mais tempo, pelo fato de ser uma coisa inédita. A gente tinha que descobrir o caminho, sem ter uma referência. Leva mais tempo, mas quando a gente consegue é algo avassalador. Eu não queria cantar só para ganhar dinheiro, queria um propósito. E saber que as coisas mudaram depois de mim.”

Anitta usa Top, saia, sutiã e headpiece, tudo Marc Jacobs (Foto: Zee Nunes)
Anitta usa Top, saia, sutiã e headpiece, tudo Marc Jacobs (Foto: Zee Nunes)

O depois está cada vez mais ficando para depois. Anitta já disse que se aposentaria aos 30 anos. Depois de receber prêmios, falou que havia conquistado tudo o que queria, mas os desafios têm se renovado. “Vou parar quando tiver vontade.” Pergunto que tamanho ela se vê no mercado internacional. “Me vejo como no início da carreira no Brasil, quando estourou o Show das Poderosas.” A visão pragmática mostra que ela tem total controle sobre o que acontece em sua carreira no momento atual sem deixar de enxergar o que o futuro pode ainda proporcionar. Em 2012, num voo para Las Vegas, onde gravaria um clipe, Anitta, que ainda era muito mais Larissa, diz olhando para a câmera: “Um dia vou estar velha pra caralho, rica pra caralho e cantando em tudo quanto é lugar. E vocês vão usar esse vídeo e falar: Caraca, olha como ela falava, chegou lá”. Chegou muito antes do que previa.

Anitta usa Vestido, sutiã e sapatos, tudo Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)
Anitta usa Vestido, sutiã e sapatos, tudo Louis Vuitton (Foto: Zee Nunes)

Fotos: Zee Nunes
Edição de moda: Ron Hartleben
Maquiagem: Raisa Flowers.
Cabelo: Evanie Frausto (Streeters) com produtos Bumble & Bumble.
Coordenação: Monica Borges.
Produção executiva: Sharon Woiler e Tatiana Extract.
Digital tech: Isabel Rae.
Assistentes de foto: Leandro Viana e Andre Schneider.
Nail artist: Dawn Sterling.
Tratamento de imagem: Studio Bruno Rezende.
Agradecimentos: Latam, The Mercer e Four Seasons Downtown

FonteVogue

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