Seis cisnes e um par de onças: Elizabeth II trocou presentes inusitados com ditadura brasileira
Animais receberam ‘tratamento VIP’ durante viagem, a bordo de ‘gaiolas especiais’ em navio britânico e avião da FAB
Por Thayz Guimarães
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Na única visita que Elizabeth II (1926-2022) fez ao Brasil, durante a ditadura militar, ela visitou seis cidades em 11 dias e ganhou um presente inusitado: um casal de onças-pintadas. Os animais foram dados em retribuição aos cisnes que a monarca britânica, que morreu na quinta-feira, enviou dias antes para o zoológico de Brasília e para o Palácio do Alvorada.
Acompanhada do marido, o príncipe Philip (1921-2021), a rainha chegou à capital federal em 5 de novembro de 1968, depois de passar por Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Lá, foram recebidos pelo presidente da República, o general Artur da Costa e Silva (1899-1969), com direito a recepção no Alvorada, sessão solene no Supremo Tribunal Federal (STF), pronunciamento no Congresso e banquete no Palácio do Itamaraty.
O casal de onças-pintadas foi entregue pelo prefeito de Brasília, Wadjô Gomide (1932-2003), no dia seguinte, e transportado imediatamente para Londres em um voo da British United Airlines, segundo informações da BBC. Já os cisnes reais chegaram ao Brasil em 31 de outubro, a bordo de um navio, segundo matéria do Diário de Notícias publicada à época.
“Os cisnes foram levados pessoalmente pelo guardador de cisnes da Rainha, sr. John Turk” até o porto de Londres, de onde partiram para o Brasil a bordo de ‘gaiolas especiais’”, escreveu o jornal. Os animais receberam “tratamento VIP” durante a viagem para o Rio e foram transferidos para Brasília pela Força Aérea Brasileira (FAB), acrescentou.
Um casal de cisnes reais foi enviado para enfeitar o lago do Palácio do Alvorada, a residência oficial do presidente da República, enquanto outros dois foram destinados ao jardim zoológico de Brasília, a capital federal.
Durante séculos, essas aves aquáticas foram consideradas legalmente propriedade da Coroa. Mas, atualmente, o monarca é dono apenas dos cisnes que vivem no rio Tâmisa, que corta Londres e passa próximo ao Palácio de Buckingham, que agora será ocupado pelo rei Charles III. Todos os anos, desde o século XII, é feito um censo desses animais.
Elizabeth II e Philip desembarcaram no Brasil por Recife, em 1º de novembro, onde foram recepcionados pelo governador Nilo Coelho no Palácio do Campo das Princesas. Na ocasião, a monarca tinha 42 anos de idade e 16 de reinado. Eles participaram de um cortejo pelas ruas da cidade e seguiram para Salvador a bordo de um iate da Marinha real.
Financiamento para a Ponte Rio-Niterói
Na capital baiana, visitaram o Palácio da Aclamação, sede do governo estadual, a Igreja de São Francisco, o Museu de Arte Sacra e o Mercado Modelo, antes de viajarem para o Rio de Janeiro, acompanhados de uma procissão de quase 40 embarcações pela Baía de Todos os Santos. A passagem por terras cariocas foi marcada pela inauguração das obras da Ponte Rio-Niterói.
Sobre isto, o Diário de Notícias destacou, em 27 de outubro, que a vinda de Elizabeth II ao Rio de Janeiro teria “finalidade comercial”: “Dos 74 milhões de dólares que a ponte custará, 31 milhões serão financiados pelo grupo N.M. Rothschild and Sons, em nome de um consórcio de bancos britânicos. Em troca, todo aço utilizado na construção da ponte será fornecido pela Inglaterra, que está em dificuldades econômicas e precisa muito de grandes encomendas para a sua indústria”, disse o jornal.
O casal real ainda viajou para Brasília, São Paulo e Campinas, antes de voltar para o Rio, onde assistiram a um jogo no Maracanã e conheceram o jogador de futebol Pelé, na época com 28 anos e já bicampeão do mundo.
A vinda ao Brasil, no entanto, quase precisou ser cancelada devido a suspeitas de catapora. O filho da princesa Margaret (1930-2002), irmã de Elizabeth II, contraiu varicela e houve um temor de que a rainha pudesse ter sido contagiada pelo sobrinho.
“A rainha deveria partir dentro de uma semana. Teme-se que, por causa de suas frequentes relações com seu pequeno sobrinho, que é seu preferido, não poderia sair de Londres antes de 20 dias”, publicou o Diário de Notícias em 26 de outubro.





