Rua 14 de julho, quando a história vira arte

Com o corre-corre diário, tem gente que nem para um pouquinho para apreciar a paisagem nas cidades. Em vários cantos do mundo, os centros urbanos são verdadeiros museus a céu aberto, contam a história do lugar que está impregnada em cada prédio, praça, monumento. Na rua 14 de Julho não é diferente. É só levantar a cabeça para começar a conhecer o contexto que se forma nas curvas arquitetônicas, nos estilos de cada época. Como diz a arquiteta Bia Meneghini, temos que “perceber a rua com outros olhos”.

Bia é uma das idealizadoras de um movimento que vem crescendo na capital, o grupo Urban Sketchers de Campo Grande, com mais de 80 membros. Criado há pouco mais de um ano, ele reúne um grupo de arquitetos, artistas, estudantes de arquitetura e pessoas de outros setores que compartilham a paixão pelo desenho. Usando as mais diversas técnicas artísticas, como aquarela, nanquim e grafite, eles percorrem as ruas desenhando os principais pontos históricos, especialmente os bens tombados pelo Instituto Histórico Nacional – IPHAN. Os participantes têm seu desenho carimbado a cada encontro com a imagem do movimento que é padrão. Em Campo Grande o símbolo é a Morada dos Baís.

Na rua 14 de Julho, já foram “modelos” para a arte vários imóveis icônicos, como a construção na esquina das ruas Marechal Rondon e 14 de Julho, a antiga Casa Comercial Adri, com elementos de ornamentos de ecletismo em toda a sua extensão. Outro objeto dos desenhistas foi o edifício José Abraão, o antigo Hotel Americano, construído em 1939 e considerado o primeiro edifício de três pavimentos de Campo Grande. Arquitetonicamente, um exemplo do estilo Art Decó, com a fachada com formas geométricas, uso de cores fortes e falta de simetria. E é claro que não poderia faltar o relógio da 14 de Julho, símbolo de uma época e com um significado especial para a história da capital. Cada observação dura, em média, três horas. O resultado são desenhos belíssimos. Os artistas Igor Braidoti, Rodrigo Albuquerque e Rubens Pires dos Santos representaram o monumento do relógio. Já Márcia Ribeiro, Roberto Araújo e Ruan Quevedo traçaram as formas das edificações.

Em tempos de pandemia, os encontros são virtuais. A observação está sendo feita através da ferramenta Google Street View, onde os artistas conseguem visualizar as edificações e desenhar em casa, sem causar aglomerações e respeitando as normas de saúde e segurança. Durante a quarentena, o grupo está realizando o 19º “encontro” e o prédio escolhido foi a Casa do Artesão, bem no centro da cidade.

A arquiteta explica que o que se espera com esta iniciativa é contribuir para a formação de pessoas mais conectadas com suas cidades, capazes de identificar e compartilhar suas visões sensíveis dos lugares que habitam ou por onde passam, contribuir para que as pessoas se tornem verdadeiros cidadãos e habitantes que amam e respeitam as suas cidades.

Os Desenhistas Urbanos

O movimento Urban Sketcher nasceu na Europa, em Portugal, há pouco mais de sete anos. No Brasil, artistas de 53 cidades se dedicam às representações no papel. Em Campo Grande, os organizadores da ação são Bia Meneghini, Cassio Shimizu, Julia Leika, Marcia Ribeiro e Roberto Araújo.

Quem quiser conhecer os desenhos, pode seguir o @uskcampogrande_ms.

Para divulgar o trabalho do grupo de Campo Grande, será lançado, ainda este mês, um livro com cerca de 100 desenhos de 17 artistas. Na publicação virtual, a Rua 14 de Julho terá três pontos representados na arte feita à mão.