Polícia de Putin prende quase 4 mil pessoas neste domingo na Rússia em protestos em 57 cidades contra a guerra na Ucrânia, diz ONG

LONDRES – Cerca de 4 mil pessoas foram detidas neste domingo em 57 cidades russas em protestos contra a invasão ordenada por Vladimir Putin à Ucrânia, de acordo com um monitor de protestos independente baseado na Rússia.

O grupo que monitora protestos da ONG OVD-Info afirmou que as prisões ocorreram de São Petersburgo ao extremo Leste da Rússia. Cerca de 1.700 prisões ocorreram em Moscou e 750 em São Petersburgo. Ativistas da oposição postaram vídeos mostrando protestos e prisões em cidades da Rússia. A mesma organização havia relatado antes 6 mil prisões em protestos desde o início da guerra, em 24 de fevereiro.

A Reuters não conseguiu verificar as informações de forma independente e nem falar com o porta-voz do Ministério do Interior da Rússia. Manifestação sem autorização prévia estão proibidas no país e houve reforço policial nas ruas das grandes cidades.

— Os parafusos estão sendo totalmente apertados. Estamos testemunhando censura militar em sua essência — disse Maria Kuznetsova, porta-voz da OVD-Info, à Reuters por telefone de Tbilisi, capital da Geórgia. —Estamos vendo protestos bem grandes hoje, mesmo em cidades siberianas, onde raramente temos esse número de prisões — disse Kuznetsova.

O Ministério do Interior alertou, no sábado, que qualquer tentativa de realizar protestos não autorizados seria impedida e os organizadores seriam responsabilizados por eles.

Um vídeo postado nas mídias sociais mostra um manifestante em uma praça na cidade de Khabarovsk gritando: “Não à guerra, como você não tem vergonha?” antes de dois policiais o deterem.

A polícia usou alto-falantes para dizer a um pequeno grupo de manifestantes em Khabarovsk: “Respeitados cidadãos, vocês estão participando de um evento público não autorizado. Exigimos que se dispersem”.

A agência Reuters não conseguiu verificar a postagem de forma independente. A mídia controlada pelo Estado russo ficou em silêncio sobre os protestos antiguerra.  Um dos principais opositores do Kremlin, Alexei Navalny, que está preso por uma acusação de fraude que ele alega ser política, havia convocado protestos para este domingo contra a invasão, em um post no Facebook.

Na sexta-feira, Putin sancionou uma  lei que prevê até 15 anos de prisão para quem publicar “desinformação” sobre as Forças Armadas e vários veículos independentes russos, como a Rádio Eco de Moscou, o site Meduza, e a TV Chuva, tiveram suas operações suspensas ou fecharam. Neste domingo, a página do site Mediazona foi bloqueada pelo órgão regulador das comunicações no país, o Roskomnadzor.

Depois da lei, veículos ocidentais como a BBC, a CNN e a agência Bloomberg suspenderam suas atividades jornalísticas na Rússia, e o mesmo foi feito pelo aplicativo TikTok neste domingo, suspendendo a transmissão ao vivo de vídeos.

Dmitri Muratov, jornalista que dividiu com a filipina Maria Ressa o Prêmio Nobel da Paz no ano passado, disse que seu jornal Novaya Gazeta, que sobreviveu ao assassinato de seis de seus jornalistas, pode estar prestes a fechar também. Ele disse que teve que retirar do ar reportagens sobre a guerra, que o governo russo só autoriza a chamar de “operação militar especial”.

A agência de notícias russa RIA mostrou imagens do que pareciam ser apoiadores do Kremlin dirigindo em Moscou com bandeiras russas e exibindo as marcações “Z” e “V”, usadas pelas forças russas em tanques na Ucrânia, e que estão associadas às expressões “Pela vitória” e “Força pela verdade”.

O patriarca Kirill, ou Cirilo I, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, se alinhou ao Kremlin ao dizer que os valores russos estão sendo testados pelo Ocidente, que, segundo ele, oferece apenas consumismo e a ilusão de liberdade. Em seus anos no poder, Putin se aproximou da cúpula da Igreja Ortodoxa.

Nos termos de Putin

Ao lançar o que chama de “operação militar especial” na Ucrânia, Putin alegou defender as comunidades de língua russa contra a perseguição do governo ucraniano e de milícias de extrema direita. Ele agora exige que a Ucrânia adote um status de neutralidade, se desmilitarize e abra mão do pedido de adesão à Otan, a aliança militar liderada pelos EUA.

Além da Rússia, cerca de 2 mil pessoas participaram de um protesto antiguerra na maior cidade do Cazaquistão, Almaty, segundo vídeos postados nas redes sociais. A Reuters não conseguiu verificar as postagens de forma independente.

A multidão gritou frases como “Não à guerra” e “Putin é um idiota”, enquanto agitava bandeiras ucranianas. Ativistas colocaram balões azuis e amarelos na mão de uma estátua de Lenin que fica na pequena praça onde ocorreu o comício.

Uma organização militar liderada pela Rússia, a  Organização do Tratado de Segurança Coletiva, enviou tropas ao Cazaquistão no início deste ano para ajudar a sufocar protestos contra o governo local.

É difícil medir o quanto a guerra é impopular na Rússia porque institutos independentes, como o Levada, não estão divulgando pesquisas. Institutos ligados ao Kremlin dizem que a popularidade de Putin aumentou depois da invasão. O instituto FOM, que fornece pesquisas para o governo, disse que a aprovação de Putin subiu 7 pontos percentuais para 71% na semana da invasão.

FonteAgencias Internacionais