Perícia aponta que deputado federal Loester Trutis não era perseguido e forjou atentado em estrada vicinal

Investigação mostrou inconsistências no caso em que deputado do PSL-MS teria supostamente sofrido um atentado. De acordo com o relatório, parlamentar ainda tentou dificultar as investigações e teria atirado no próprio veículo para forjar ataque

Carro do deputado federal com marcas de tiros — Foto: Loester Trutis/ Redes Sociais

O inquérito da Polícia Federal que investigou o caso do suposto atentado contra o deputado federal Loester Trutis (PSL-MS) e seu assessor, utilizou as coordenadas do GPS do veículo utilizado pelo parlamentar e câmeras de segurança para apontar diferenças nos depoimentos das até então vítimas e chegar a conclusão de que o ataque foi forjado pelo deputado.

Trutis foi preso nesta quinta-feira (12), por posse ilegal de armas de fogo de uso restrito, após cumprimento de mandado de busca e apreensão na casa dele, decorrente da Operação que investiga o suposto atentado. À tarde, sua defesa conseguiu um habeas corpus, concedido pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF) e ele foi solto.

De acordo com o relatório da perícia, Trutis apontou, em sua versão, que teria saído na madrugada do dia 16 de fevereiro Campo Grande, acompanhado do assessor Ciro Nogueira Fidelis, quando teria sofrido o atentado, na BR-060, saída para Sidrolândia. O documento aponta que “os depoimentos das, até então, vítimas” foram colhidos e que o assessor dirigia o veículo, enquanto Trutis estava no banco de trás, no momento do suposto ataque.

O relatório mostra o passo a passo da investigação, desde a reconstituição do suposto atentado, até o monitoramento de câmeras de segurança, dividindo-se o trajeto em três percursos e recolhendo imagens desde a saída do parlamentar de sua residência. O documento aponta que para que o atentado ocorresse, “era imprescindível de que o deputado estivesse sendo monitorado e acompanhado”.

INCONSISTÊNCIAS

A investigação, porém, acabou mostrando as inconsistências que fizeram o caso passar de um suposto ataque para um crime forjado pelo parlamentar. De acordo com o documento, o veículo utilizado no dia do suposto ataque era diferente dos utilizados nos dias anteriores por Trutis, sendo difícil a identificação por um possível atirador. A equipe de analistas das câmeras de segurança ainda concluiu que “nada indica que o deputado foi seguido ou perseguido desde a saída de sua casa até o local em que os tiros ocorreram”.

A tese do ataque ficou ainda mais improvável, já que, conforme a investigação, o suposto atirador deveria estar seguindo o veículo para ter alvejado cinco vezes o banco de trás, sabendo que o deputado estava descansando na parte traseira do carro, que tem os vidros escuros. O GPS do veículo também foi importante para a investigação, pois mostrou que o trajeto do deputado e o assessor dele no dia do suposto atentado não foi “absolutamente nada condizente com a versão apresentada pelos noticiantes ao longo da investigação”.

Ainda foi possível concluir, segundo a investigação, de que o carro com o parlamentar e o assessor entrou em uma estrada vicinal, onde ficou por mais de 2 minutos e 47 segundos. “O veículo esteve parado no mesmo local por exatos 40 segundos e por aproximadamente 24 segundos esteve com a ignição desligada. Tempo suficiente para descer do veículo, efetuar vários disparos de arma de fogo e retornar para dentro do veículo”.

O relatório ainda faz duras ponderações, dizendo que “o veículo trafegou na rodovia nos mais diversos sentidos em velocidade baixa, pois os atores da tragicomédia estavam procurando o lugar para encenarem a sua peça” e que “chama a atenção a quantidade e a riqueza de detalhes passados pelo Parlamentar aos policiais federais”, “posteriormente, podendo-se concluir de que as informações tinham como único objetivo dificultar e inviabilizar o andamento da investigação”.

Por tudo que apontavam as investigações, o relatório sugeriu uma nova hipótese de crime: a de que o deputado e seu assessor saíram pela rodovia com a finalidade de simular um atentado com disparos de arma de fogo. “Para tanto, realizaram disparos com uma arma Glock 9mm, ainda não localizada, de fora para dentro do veículo, e (…) ainda realizaram disparos com uma pistola (…) de dentro para fora do carro”, concluiu a perícia.

Por isso, Trutis passou de vítima para investigado no caso, pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo, disparo de arma de fogo e comunicação falsa de crime. O documento ainda autorizou a abertura de inquérito contra Trutis, e também contra o assessor que estaria com ele no momento do crime, o irmão do parlamentar e um outro integrante do PSL.

ENTENDA O CASO

Segundo o deputado relatou à polícia em fevereiro, o carro em que estava com o assessor foi alvejado na manhã do dia 16 de fevereiro, na BR-060, entre Campo Grande e Sidrolândia. Na época, Trutis usou as redes sociais para divulgar o ocorrido e também disse que não daria entrevistas.

Ele contou que seguia, com o seu motorista, de Campo Grande para Sidrolândia, quando ambos foram alvos de disparos. Eles identificaram ao menos cinco marcas de tiros no carro. Não houve feridos.

Trutis contou que, para se defender, revidou aos disparos e os suspeitos fugiram. O parlamentar e o motorista foram retirados da rodovia com apoio do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) de Mato Grosso do Sul.