Ômicron faz casos dispararem no Sul da África, mas gravidade ainda permanece baixa

Os primeiros indícios de como a recém-descoberta variante Ômicron da Covid-19 se comportará vêm do Sul da África, o marco zero da cepa. Países como África do Sul, Botsuana e Lesoto estão no centro dos holofotes globais, apesar de a disseminação da nova forma do vírus ainda ser muito incipiente e o número de casos, relativamente pequeno para que se tirem maiores conclusões.

Até o momento, a proporção de pessoas diagnosticadas com Covid-19 que foram internadas na África do Sul nas últimas duas semanas é similar à de surtos provocados por outras cepas, disse Waasila Jassat, especialista de saúde pública no Instituto Nacional para Doenças Comunicáveis sul-africano, em uma entrevista coletiva. Nenhum país, no continente ou fora, confirmou até o momento mortes causadas pela Ômicron.

Até o momento, a proporção de pessoas diagnosticadas com Covid-19 que foram internadas na África do Sul nas últimas duas semanas é similar à de surtos provocados por outras cepas, disse Waasila Jassat, especialista de saúde pública no Instituto Nacional para Doenças Comunicáveis sul-africano, em uma entrevista coletiva. Nenhum país, no continente ou fora, confirmou até o momento mortes causadas pela Ômicron.

Presta-se mais atenção na África do Sul porque foi lá que se detectou o primeiro caso da doença e é lá que há mais diagnósticos confirmados — é também a nação com melhor infraestrutura da região, tendo assim mais recursos para fazer um controle do quadro epidemiológico e sequenciamento genômico do vírus. Nesta segunda-feira, uma das principais autoridades sanitárias do país disse que o número de novos diagnósticos diários pode triplicar até o fim da semana, ultrapassando 10 mil.

Segundo Salim Abdool Karim, conselheiro-chefe do governo durante a resposta inicial à crise sanitária, em 2020, as vacinas devem ser eficazes na prevenção de casos graves da doença — os laboratórios dizem que levarão cerca de duas semanas para ter dados mais eficazes. A Ômicron apresenta um total de 50 mutações, quase o dobro das vistas na Delta — mais de 30 delas apenas na proteína spike, usada pelo vírus para invadir as células e alvo da maior parte dos imunizantes.

Evidências preliminares sugerem que a nova variante aumenta o risco de reinfecção, mas o número elevado de mutações não significa necessariamente que a cepa é mais perigosa. Como seu primeiro caso foi confirmado apenas no dia 11, levando-se em conta o ciclo da Covid, é neste momento que seu impacto nas internações começa a ser sentido.

— Pacientes vacinados tendem a se sair muito melhor. Ainda não vimos um aumento significativo das internações, mas ainda é muito cedo  — afirmou o médico Unben Pillay, também em entrevista coletiva.

Epicentro entre os jovens

A média móvel de 14 dias das pessoas internadas diariamente na província de Gauteng, epicentro da crise sanitária sul-africana — 84% dos novos casos estão concentrados lá — era de 49 na última sexta-feira. Na quinzena anterior, o número havia ficado em 18.

As mortes não crescem na mesma proporção, mantendo-se praticamente estáveis. Hoje, em média 0,53 pessoa por milhão morre diariamente devido à Covid-19 na África do Sul. No Brasil, para fins comparativos, a taxa é de 1,08. Hoje, até mesmo a incidência de casos por lá é inferior: 42 em cada milhão de brasileiros são diagnosticados por dia com o vírus, contra 30 para cada milhão de sul-africanos.

A tendência de crescimento, ainda assim, é precupante: em 11 de novembro, o país registrava em média 300 infecções diárias, contra 3,2 mil vistas no domingo. O epicentro é em Gauteng — mais especificamente, entre pessoas na casa dos 20 e 30 anos. A faixa etária, por si só, é mais um complicante para entender o impacto da Ômicron.

Vetos a viagens

Regionalmente, tanto na África do Sul quanto no resto da região, o sentimento popular parece ser de mais irritação com as limitações impostas à região do que propriamente de medo da Ômicron. As perdas economicas causadas pelo desaparecimento do turismo ameaçam atrasar ainda mais a recuperação da economia:

— Eu dependo disso para viver — disse à Deutsche Welle um vendedor de chapéus do Malauí que trabalha na Praça Greenmarket, na Cidade do Cabo. — O que eu estou preocupado é com os meus filhos e com a minha família. O que eles vão comer?

Autoridades por todo o continente africano ecoam as reclamações populares: o presidente do Malauí, Lazarus Chakwera, disse que os vetos constituem “afrofobia”. Destacando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda vetos a viagens, Ramaphosa disse que seu país está sendo castigado por sua “capacidade avançada no sequenciamento de genomas”. Declaração similar foi feita pelo ministro da Saúde de Botsuana, Edwin Dikoloti.

Ao invés de proibir o fluxo de viajantes, disse o presidente, as nações desenvolvidas deveriam se concentrar em apoiar o mundo em desenvolvimento na luta contra a pandemia. Enquanto muitos países ricos e emergentes já administram doses de reforço e têm injeções de sobra, apenas 6,6% da população africana de 1,2 bilhão de habitantes estão totalmente vacinados.

— O povo da África não pode ser culpado pelo nível imoralmente baixo de vacinações disponíveis na região, e não deve ser penalizado por identificar e compartilhar com o mundo informações científicas e sanitárias cruciais para o mundo — disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertando contra o isolamento do continente, e pedindo para que os países recorram a testes e medidas sanitárias que permitam viagens e engajamento, ao invés do veto.

O presidente chinês, Xi Jinping, anunciou nesta segunda que doará 1 bilhão de doses adicionais ao continente africano, mas não está claro quando.

FontePor G1