Não é só pelo dinheiro: entenda como Abramovich usou Chelsea para autopropaganda

Roman Abramovich vai se desfazer do Chelsea, apesar de contrariado. Instigado por rumores da imprensa britânica, o oligarca russo tomou a decisão de publicar uma nota oficial – curta, como de costume –, na qual avisa torcedores e mercado que o clube está à venda.

O desfecho dessa história reforça o que o futebol representou para o empresário nessas quase duas décadas em que deteve o clube. Dinheiro é o de menos. O Chelsea funcionou como máquina de propaganda, em um negócio muito mais complexo do que o campo sugere.

Vejamos alguns números. Abramovich comprou o clube britânico por 140 milhões de libras, em 2003, segundo reportagens da época. Ao longo dos anos, investiu centenas de milhões para torná-lo competitivo.

Segundo o balanço mais recente, encerrado em 30 de junho de 2021, a empresa que opera o Chelsea tem dívida de 1,4 bilhão de libras com seu dono. Trata-se do dinheiro que o proprietário “emprestou” a fundo perdido para que o clube fizesse bom futebol. Além disso, de maneira geral, o endividamento dos Blues é praticamente zero.

Abramovich não fez questão de cobrar essa dívida durante todo esse tempo, e nem faz neste momento, em que decide vender o clube. Na nota publicada, o russo diz que desiste de qualquer reembolso em relação a essa dívida. O discurso dele é o de que o futebol nunca foi um negócio, e sim uma paixão pura pelo esporte e pelo clube.

O oligarca ainda escreveu, no comunicado, que instruiu seus representantes a doar as “receitas líquidas” da operação da venda para uma fundação de caridade, alguma entidade que acolha as vítimas da guerra que a Rússia começou na Ucrânia há uma semana.

As dívidas do Chelsea

Em milhões de libras 30/06/2021
Credores diversos 163
Impostos 0
Seguridade social 31
Outros credores 4
Empréstimo de parte relacionada 1.398

Esse desprendimento ao dinheiro faz parte de um jogo de relações públicas, de imagem. No momento em que oligarcas russos são perseguidos e isolados internacionalmente, por causa das relações com Vladimir Putin, presidente da Rússia e principal responsável pelo ataque à Ucrânia, o que Abramovich menos quer é parecer que está do lado russo.

Como contexto, é importante lembrar da origem desse dinheiro. Após a queda da União Soviética, nos anos 1990, companhias estatais foram compradas a preço de banana por determinados empresários – os chamados oligarcas, ou magnatas russos. Abramovich era um deles.

De lá para cá, sobretudo depois que se tornou figura pública internacional por meio do futebol, o bilionário fez questão de desvencilhar a imagem dele do governo ditatorial da Rússia. Ou, pelo menos, de tentar se afastar dela. Frequentemente, com advogados no meio-campo.

Em um desses confrontos legais, contra a jornalista Catherine Belton e a editora HarperCollins, Abramovich conseguiu que um livro biográfico sobre Putin fosse corrigido, após anos de disputa judicial. O título dele é “Putin’s People” (“Pessoas de Putin”, em tradução literal”).

A autora havia escrito que o magnata comprou o Chelsea em 2003 a mando do presidente da Rússia. Nova edição do livro terá essa parte suprimida, bem como outras acrescentadas, com o lado de Abramovich, segundo acordo firmado em dezembro de 2021.

Roman Abramovich, durante encontro em 2016 com lideranças do governo da Rússia — Foto: Getty Images

Roman Abramovich, durante encontro em 2016 com lideranças do governo da Rússia — Foto: Getty Images

Apesar dos esforços do magnata para se afastar da imagem de Putin, durante todo esse tempo houve a percepção de que, de alguma maneira, o empresário mantinha proximidade com o presidente russo.

Tanto é que, após o início da guerra, o parlamentar trabalhista Chris Bryant criticou publicamente a administração do russo no clube de futebol. Ele citou um documento vazado, produzido pelo governo britânico em 2019, no qual está descrito que Abramovich mantém vínculos com a Rússia, além de se associar em “atividades malignas”.

– Isso faz quase três anos. E ainda assim quase nada foi feito. Certamente o senhor Abramovich deveria ser impedido de ter um clube de futebol neste país? Certamente nós deveríamos apreender alguns de seus ativos, incluindo sua casa de 150 milhões de libras, e garantir que outras pessoas que tenham o visto de “nível um” não se envolvam em atividade maligna no Reino Unido? – disse parlamentar britânico.

 

FonteCHELSEA