Luiza Brunet nega candidatura política e conta que recebe vídeos de mães agredidas na sala de parto: ‘De pernas abertas, parindo seus filhos’

Voz cada vez mais ouvida nas questões da violência contra a mulher e dos direitos humanos, a ex-modelo, empresária e hoje ativista Luiza Brunet conversou com o GLOBO sobre suas lutas mais recentes e também sobre casos como violência obstétrica e homens que não pagam pensão aos filhos.

 

Membro do grupo de trabalho do Observatório dos Direitos Humanos do Poder Judiciário, Luiza nega que vá ser candidata à deputada federal em 2022 (apesar dos convites). E revela: traumas como a objetificação durante a carreira de modelo e a violência do ex-marido a fizeram despertar para a necessidade de ajudar outras mulheres.

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Qual a importância de o Conselho Nacional de Justiça ter aprovado sua proposta para criar programas voltados aos agressores que cometeram violência doméstica contra a mulher?

É um ganho importantíssimo de políticas públicas para as mulheres. Já existia como possibilidade, mas agora se torna obrigatório. Isso vai fazer com que o homem pense e reflita antes de realizar uma agressão. É uma forma de constrangimento.

Como você vê o caso do ator André Gonçalves, que deve anos de pensão às filhas e foi condenado a prisão domiciliar?

Acho que tem que punir mesmo. Casos como o do André merecem punição severa. Porque a responsabilidade é de ambos, mas a mulher acaba ficando com o peso de prover, criar, educar. São situações que acontecem no Brasil inteiro. É uma falta de compromisso que os homens têm com os seus filhos. Eles não cumprem o seu papel de pai, que passa pela questão financeira.

O tema da violência obstétrica veio à tona com as denúncias contra o médico Renato Kalil. É um problema mais comum do que se imagina?

Sim, é um problema menosprezado e gravíssimo. Mulheres perdem a vida, perdem seus filhos. Eu recebo vídeos de mães agredidas dentro da sala de parto. No momento em que ela está com as pernas abertas, parindo sua criança, está levando porrada na barriga. Sorte que agora algumas conseguem gravar e denunciar essa violência. Mas são poucas ainda, precisamos criar um movimento de indignação como houve quando apareceu o vídeo do DJ Ivis agredindo sua mulher. Não é possível que isso aconteça em pleno século XXI.

Que outras pautas você acha que precisam de atenção?

Ouvi uma fala da ministra Damares [Alves, titular da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] que me deixou horrorizada, sobre os estupros contra as mulheres idosas. Há grupos de rapazes se gabando na internet, dizendo que pegam as idosas “para elas verem o que é bom”, um nível de desrespeito absurdo. Há também agressões nesse sentido contra mulheres com necessidades especiais. É muita coisa para se falar. Se não pensarmos nestas vertentes todas, não tem como se pensar em políticas públicas.

Por falar em política, o MDB sondou você para para se filiar ao partido e disputar uma cadeira de deputada federal. Vai aceitar?

Não foi o único partido, recebi alguns convites. Todos querem inserir nas suas plataformas essa questão da mulher, porque dá visibilidade, é uma bandeira legal.

E você aceitou?

Não falo “dessa água não beberei”, mas agora não pretendo me dedicar à política partidária. Faço política humanitária. Trabalho em prol das pessoas, sou voluntária, não ganho nada pra fazer isso. Nesse momento, estou aqui nos Estados Unidos em uma imersão total de 10 dias para entender o tráfico humano, o mercado clandestino bilionário de pessoas tratadas como objetos, gente destinada a trabalho escravo, crianças exploradas sexualmente. Quero atuar nestas questões delicadas, contribuir para a sociedade neste sentido.

Você se tornou referência nas questões de violência contra a mulher a partir de uma agressão que sofreu. Outros fatos da sua trajetória te levaram a querer ajudar outras mulheres?

Sem dúvida. Assisti violência doméstica em casa. Sofri violência sexual aos 12 anos de idade, trabalhando em uma casa de família. No trabalho como modelo, muitas vezes, me senti objetificada.

De que maneira isso ocorria?

Eu fazia campanhas publicitárias consideradas na época mais eróticas, e isso fazia com que homens oferecessem dinheiro para estar comigo. Por aparecer ali daquela forma, eu estaria disponível para sexo também. Acontecia no começo dos anos 1980, mas até hoje eu recebo esse tipo de “cantada”, é surreal. Tudo isso leva você a ver que as violações são constantemente presentes na vida de todas as mullheres. O ativismo fica mais latente, uma bandeira para que as futuras gerações não precisem passar por isso.

Há boatos de que estaria namorando o ministro do STF, Luiz Fux. Te incomoda essa dinâmica machista de ficarem te arrumando namorado toda hora?

Eu não falo muito da minha vida pessoal. Não tenho necessidade. Já inventaram que eu tive caso com tantos homens famosos, que o apartamento que eu lutei para comprar foi dado por um político, que o meu carro foi um presente, o anel que eu uso foi dado por não sei quem. É tanta coisa que esse tipo de fofoca não me incomoda mais.