Líderes da final: por que Thiago Silva e Fernandinho chegam como protagonistas de City x Chelsea

Era o dia 31 de dezembro de 2020. O Manchester City estava em quinto na Premier League, a seis pontos do líder Liverpool. Após sentir menos intensidade dos companheiros no treinamento daquele dia, Fernandinho convoca uma reunião. Informal. Sem que Pep Guardiola soubesse. O brasileiro cobra do time. Pede uma reação. A equipe venceu 32 dos 37 jogos que fez desde então.

Era o dia 5 de maio. O Chelsea venceu o Real Madrid por 2 a 0 e chegou à sua segunda final de Champions. Após a partida, Thiago Silva troca mensagens com um amigo, que se despede e diz para o defensor comemorar bastante. O brasileiro responde com uma foto de seu tratamento regenerativo. Em casa. Horas depois da classificação.

A final da Champions entre Manchester City e Chelsea é neste sábado, no Estádio do Dragão, no Porto, com acompanhamento em tempo real no ge

 

Carrossel Fernandinho Thiago Silva Manchester City x Chelsea — Foto: Infoesporte/ge.globo

Carrossel Fernandinho Thiago Silva Manchester City x Chelsea — Foto: Infoesporte/ge.globo

Os dois fatos narrados acima ajudam a explicar como o volante do City e o zagueiro do Chelsea, ambos com 36 anos, chegam com tanta moral em uma final de Liga dos Campeões e são líderes nos dois elencos. E como não se abalaram com o peso de derrotas traumáticas na seleção brasileira e nunca perderam respeito em seus clubes.

Fernandinho busca seu 30º título na carreira profissional. Tem 10 ligas nacionais no currículo. É o jogador com mais partidas em Champions no Manchester City, 66, e o terceiro com mais taças na história do clube: 13. Thiago Silva tenta ser campeão pela 29ª vez. Tem oito ligas nacionais. Ambos nunca ganharam a Liga dos Campeões (veja a lista de títulos mais abaixo).

A idade não permite que os dois brasileiros estejam entre os mais utilizados na temporada. Thiago Silva teve lesões e é o 11º jogador com mais minutos no Chelsea em 2020/21. Fernandinho é o 16º no City. Mas passou a ser o capitão principal da equipe e é escalado por Guardiola nas principais partidas. O protagonismo da dupla vai além do desempenho em campo.

 

Info Fernandinho Thiago Silva Manchester City x Chelsea — Foto: Infoesporte/ge.globo

Info Fernandinho Thiago Silva Manchester City x Chelsea — Foto: Infoesporte/ge.globo

 

No passado de Fernandinho, estão as duas últimas eliminações do Brasil em Copas do Mundo. Ele foi titular no 7 a 1 para a Alemanha – Thiago Silva estava suspenso naquela partida – e fez um gol contra na derrota por 2 a 1 para a Bélgica em 2018.

O primeiro trauma levou o volante a se isolar com a família por uma semana. Sem contato nenhum com mundo exterior. Mas o segundo o fez repensar. Chegou a cogitar não jogar mais pela seleção brasileira. Vítimas de ataques na internet, familiares sofreram ainda mais. Na volta ao Manchester City depois do Mundial da Rússia, o meio-campista ganhou o impulso que precisava.

– Ele (Guardiola) disse que sabia que havia sido muito difícil, mas preferia que eu estivesse focado, tanto que uma semana, 10 dias depois, eu estava jogando a final da Supercopa – afirmou Fernandinho, em entrevista ao ge em fevereiro de 2019.

“Às vezes, uma pessoa não precisa falar muito para te dar apoio e dizer que está junto. Uma atitude fala mais que palavras”, descreveu o volante.

 

Com tal exemplo, Fernandinho ganhou respeito de torcedores, imprensa e, especialmente, dos companheiros em oito anos de Manchester City. O volante é visto como um marco no clube no que se refere a experiências com brasileiros.

Antes, os Cityzens só tinham quatro referências nessa área: o meia Elano, e os atacantes Geovanni, Jô e Robinho, que chegou como maior contratação do clube na época. Diante do fraco desempenho do quarteto e alguns problemas extracampo de outros, brasileiros passaram a ser vistos com desconfiança no clube. Até a chegada de Fernandinho, em 2013.

Amigo do jogador há 23 anos, compadre e sócio do jogador, Mykon Rabelo diz que o volante brasileiro nunca precisou de discursos inflados para exercer a sua liderança. E isso conquistou o grupo do City e o ajudou a superar os fantasmas, especialmente na trajetória pela Seleção.

– Quando o Fernandinho chega no City, jogadores brasileiros não eram tão bem-vindos. Ele crava estaca, depois dele vêm os outros, Ederson, Gabriel Jesus. A vontade dele de vencer é desde menino. Ele sempre diz: ‘O dia que eu não jogar em alto nível, não vou ficar fazendo número em clube nenhum’. Ele tem uma força interna. Fernando é muito na dele, muito fechado. Talvez outros jogadores teriam dado resposta diferente (às críticas). Ele acredita no trabalho – comenta Mykon, amigo do jogador.

Fernandinho foi o primeiro capitão brasileiro a levantar a Premier League e pode ser o primeiro capitão brasileiro a levantar a Liga dos Campeões — Foto: Michael Regan/Getty Images

Fernandinho foi o primeiro capitão brasileiro a levantar a Premier League e pode ser o primeiro capitão brasileiro a levantar a Liga dos Campeões — Foto: Michael Regan/Getty Images

Quem corrobora com o depoimento de Mykon é o meio-campista Gündogan, artilheiro do Manchester City na temporada. Na última segunda, o alemão começou e terminou sua resposta sobre o peso de Fernandinho no grupo com “eu não consigo explicar”. Mas descreveu bem o que pensa:

– Eu realmente não consigo explicar o quão importante Fernandinho é para o nosso grupo. Ele é gigantesco. Óbvio que ele não jogou tantos jogos como outros nesta temporada, mas ele sabe exatamente o seu papel, ele sabe exatamente sua responsabilidade, e ele sabe exatamente o que precisa fazer e o que precisa dizer nos momentos certos também. E isso é ser um líder – afirmou o alemão.

“Um líder não é aquele que talvez marque os gols, ou que joga todos os minutos, quem tem os melhores números de passes certos, tanto faz… um líder é alguém que não tem medo de dizer, mesmo em momentos ruins, a verdade”, diz Gündogan, sobre Fernandinho.

 

– É ter esse senso de empatia dentro de você e entender o seu papel pessoal. Mesmo que o seu papel numa perspectiva esportiva não seja o mais fácil do jeito que ele lidou com isso foi incrível no meio desta difícil temporada e ele é uma grande parte do nosso sucesso. E quando ele joga, é fantástico. Então, é isso que eu espero de um grupo que seja ativo que todos os jogadores fossem assim.

“Se você deseja ter as personalidades certas dentro do seu time, você certamente iria querer muitos Fernandinhos, porque é a mentalidade certa que ele traz para esse grupo. Ele é muito importante para a gente e eu nem consigo descrever quanto”, completa Gündogan.

 

Em 2018, Pep Guardiola disse que não teria lugar no Manchester City se ainda fosse jogador. Por quê? “Fernandinho é muito melhor”