Lentidão ameaça ruir a unidade da Europa na vacinação

Países da União Europeia, aos poucos, vencem a resistência do bloco à vacina Sputnik V e começam a assinar acordos com a Rússia para obter o imunizante produzido pelo Instituto Gamaleya, que ainda não foi autorizado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

O ritmo lento no processo de vacinação de seus 450 milhões de cidadãos deixa a UE numa enrascada: pressionada pelos membros a aceitar a vacina russa e temerosa de que o aval represente mais um trunfo para Vladimir Putin.

 

A estratégia da UE por um esforço unificado e coordenado na compra de vacinas dá sinais de ruptura com a corrida de alguns países-membros para acordos bilaterais. E a suspensão temporária da Oxford/AstraZeneca, por 13 países, parece acelerar o caminho em direção a Moscou. As relações entre UE e Rússia se deterioraram após a anexação da Crimeia, com a aplicação de sanções econômicas ao país.

Ainda que seja pela vacina para atenuar os efeitos da pandemia no continente, a negociação com a Rússia divide profundamente o bloco, que não deseja dar ao país comandado por Putin o sabor de uma vitória diplomática. Até agora, a agência que regula os medicamentos na UE, aprovou quatro vacinas e negocia com seis laboratórios.

A adesão à Sputnik V no continente partiu de dois países do Leste, membros do bloco europeu, mas que durante a Guerra Fria circundavam a órbita soviética: a Hungria encomendou 600 mil doses; e a Eslováquia, 2 milhões. Aliado de Putin e eurocético declarado, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, rompeu primeiro com o consenso europeu pela vacinação unificada, aprovando o uso da Sputnik V e da chinesa Sinopharm.

O premiê eslovaco, Igor Matovic, fez coro com o colega húngaro, sob o argumento de que “a Covid-19 não sabe nada de geopolítica”, mas enfrentou uma crise no governo. A começar pelo chanceler, Ivan Korcoc, que criticou a vacina russa “como uma arma na guerra híbrida entre a Rússia e o Ocidente”. Para atenuar a briga interna, que poria fim à coalizão que sustenta o governo no Parlamento e forçaria novas eleições no país, o ministro da Saúde renunciou.

Em rigoroso lockdown, a vizinha República Tcheca, onde o número de infecções ultrapassou os 15 mil no último sábado, também se interessou pela compra da Sputnik V, conforme manifestou o presidente Milos Zeman em carta a Putin. O ministro da Saúde resistiu à ideia e foi defenestrado.

O racha entre os países-membros motivou a advertência do atual presidente do Conselho Europeu, Charles Michel: “A Europa não aplicará vacinas que sejam usadas para fins de propaganda.” A vacina russa ainda seduz, contudo, Bulgária, Croácia, Estônia, Letônia, Romênia e Itália, onde os governos se mostram mais dispostos a conceder a Putin do que a zelar pela unidade europeia.

 

Profissional de saúde recebe primeira dose da vacina contra a Covid na Hungria. País do leste europeu começou imunização com vacina da Pfizer, mas depois adquiriu doses da Sputnik V russa — Foto: Szilard Koszticsak/Pool via Reuters/File Photo

Profissional de saúde recebe primeira dose da vacina contra a Covid na Hungria. País do leste europeu começou imunização com vacina da Pfizer, mas depois adquiriu doses da Sputnik V russa — Foto: Szilard Koszticsak/Pool via Reuters/File Photo