Integrantes do Itamaraty esperam discurso mais moderado de Bolsonaro, mas sem resultados

Integrantes do Itamaraty têm a expectativa de que o discurso do presidente Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU, nesta terça-feira, siga uma linha “mais moderada” do que os anteriores. É praticamente consenso, no entanto, que a fala não tem capacidade de restaurar a imagem do Brasil no exterior. A avaliação dos diplomatas é que a falta de credibilidade do presidente e do país permanecerão, já que todas as ações de Bolsonaro vão em direção oposta ao equilíbrio e à moderação.

Entre essas ações, diplomatas apontam o negacionismo do presidente sobre a vacina, o desmonte da política ambiental e os discursos golpistas, em especial no 7 de setembro. Lembram que também pesa contra a credibilidade de Bolsonaro as duas falas que já fez na ONU, repletas de teorias negacionistas e com ataques a outras nações.

A proposta da discurso encaminhado a Bolsonaro pelo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, e sua equipe buscou focar aspectos positivos do país, em especial sobre a vacinação contra a Covid-19. Entre os temas destacados pelo Itamaraty estão campanhas de vacinação, a perspectiva de vacinar todos os brasileiros com primeira ou segunda dose até outubro e o projeto de transformar o Brasil em um polo produtor de vacinas. Além disso, foi sugerido a Bolsonaro sinalizar doações de vacinas a países da região.

No proposta do discurso, o Itamaraty destacou também acenos sobre compromissos assumidos pelo presidente brasileiro na Cúpula de Líderes sobre o Clima, em abril. Entre eles estão o aumento do orçamento do Ibama, além de dados e ações sobre a redução do desmatamento em relação ao ano passado. Na área humanitária, foi proposto a Bolsonaro fazer uma menção ao acolhimento de afegãos pelo governo brasileiro, com citação a uma portaria que prevê a concessão de vistos a refugiados.

A avaliação de integrantes do Itamaraty é que o ministro França tentou se equilibrar entre a tentativa de recompor a imagem do Brasil e acenos à base bolsonarista. A dúvida que permanece entre membros da pasta é o quanto dessas sugestões serão acatadas por Bolsonaro. Membros da comitiva presidencial nos Estados Unidos relataram que o presidente mostrou descontentamento com o texto que recebeu.

– Chegou ao presidente um discurso menos inflamado. O interessante é ver se esse equilíbrio vai prevalecer – disse à coluna um integrante do alto escalão da pasta das Relações Exteriores.

Mesmo que Bolsonaro adote um tom mais moderado, os diplomatas não têm ilusões de que haja volta a uma linha mais tradicional do Itamaraty, responsável pelo respeito e reputação do Brasil no âmbito mundial. Se o presidente relativizar, porém, acreditam que já há algum ganho, em especial na área diplomática.