Índia: novo vírus, antigos problemas

Se o Brasil não é para principiantes, como disse Tom Jobim há tempo, a Índia é muito mais desafiadora, em todos os sentidos. E não apenas pelo tamanho da sua população, de um Brasil multiplicado por quase sete vezes, mas por muito mais. Pela complexidade de sua história e tessitura cultural, nas quais glória e tragédia regem uma trajetória de colonização, independência e partição territorial; religiões alimentadas por uma tensão que nunca arrefeceu; um sistema de castas difícil de explicar e sobretudo se justificar em pleno século XXI.

Sem uma saúde pública que dê conta minimamente de controlar as doenças endêmicas, perduram enfermidades como hanseníase e tuberculose. Faz parte de suas contradições ser o maior produtor de matérias primas para medicamentos no mundo, de par com a China, e prover uma condição absolutamente desigual aos tratamentos. No mesmo cenário, o Instituto Serum e é o maior produtor mundial de vacinas, incluindo IFAs, e de quem o Brasil recebeu doses prontas de Oxford/AstraZeneca. Hoje, diante da crise no país, é remota a possibilidade de novas remessas indianas.

Com seus mais de 300 mil casos por dia e a presença da nova variante B.1.617, responsável já por mais de um terço de todos os casos no pais, a Índia passa a ser o epicentro da pandemia. Amedronta o planeta Terra pela possibilidade de disseminação de casos e de eventual falha de resposta das vacinas disponíveis a novas variantes.

A vocação trágica indiana se repete ao longo dos séculos. Um exemplo paradigmático: a peste bubônica chegou ao país no final do século XIX, afetando mais de 100 milhões de homens e animais, e matando de fome cerca de cinco milhões. Curiosamente, como ocorre hoje, a região mais atingida pela peste bubônica foi a província de Mahahastra, onde fica Mumbai, como ocorre hoje com a Covid-19, com as impressionantes cenas das centenas de piras humanas em praças públicas.

Não se pode chamar de inimaginável, para quem conhece a Índia, que esse contraste tão vivo e pulsante se dê na região mais rica do país. Como também não o seria na urbe de Calcutá, antiga capital, com seus 18 milhões de habitantes e uma imensa concentração de pobreza.

Está no imaginário indiano e universal uma personalidade das mais complexas e intrigantes, que atravessou o século XX —o da barbárie — com doçura e firmeza: Gandhi. O que diria hoje e a que conclamaria seus milhões de seguidores e adoradores o Mahatma? Certamente para manterem distanciamento físico, cuidados de higiene e reivindicarem seu direito à vacinação.

Estaria assim traduzindo para a contemporaneidade a única utopia que permite a sobrevivência humana: o cuidado, a tolerância e a não violência.