Grilagem, especulação e desmatamento ilegal são ‘inimigos do meio ambiente’, dizem especialistas

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou nesta terça-feira (21) no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza”. A declaração foi feita quando ele comentava sobre a relação entre indústria e meio ambiente.

“As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”, disse Guedes. “Eles [pessoas pobres] têm todas as preocupações que não são as preocupações das pessoas que já destruíram suas florestas, que já lutaram suas minorias étnicas, essas coisas… É um problema muito complexo, não há uma solução simples.”

O site G1 ouviu especialistas que argumentaram contra a fala do ministro. Para eles, maiores danos ao meio ambiente são causados por latifundiários e grileiros, e que pessoas pobres vivem em situação de vulnerabilidade piorada pelos crimes ambientais.

Commodities ameaçam floresta

Para o climatologista brasileiro Carlos Nobre, a fala do ministro “não faz sentido” ao se tratar da floresta amazônica ou de regiões desmatadas do sudeste asiático. Segundo ele, nestas regiões, a maior parte das áreas desmatadas foram destinadas ao desenvolvimento do agronegócio, a pecuária e soja no Brasil e Bolívia; e a exploração do óleo de palma na Ásia.

Nobre defendeu a bioindustrialização para a redução da pobreza nas regiões de floresta. “Não existe país desenvolvido que não seja país industrializado”, disse Nobre. Para ele, a economia local deve ser desenvolvida com os recursos da biodiversidade local, mas sem provocar danos à natureza.

Desmatamento ilegal

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, a fala do ministro foi “infeliz” e o desmatamento está mais relacionado aos grandes latifúndios do que às pequenas propriedades de terra.

“Mais de 90% dos casos de desmatamento na Amazônia são ilegais”, disse Rittl. “O maior inimigo do meio ambiente é a condescendência do governo com os crimes ambientais. Grupos por trás da grilagem de terra, da exploração e mineração têm sido recebidos a todo instante por representantes do governo.”

Rittl disse que o desmatamento não é provocado por pequenos proprietários de terra, mas pelas “máfias da grilagem”. Ele explicou que desmatar é caro, e citou que um trator médio custa por volta de R$ 500 mil.

O secretário-executivo considerou que o governo do presidente Jair Bolsonaro tem uma agenda “claramente anti-ambiental”. Ele relembrou que o Fórum de Davos, onde Guedes discursou nesta terça, elegeu temas de sustentabilidade entre os 5 maiores riscos globais para a próxima década.