Gelo no whisky, paciêcia são o segredos de Braz e Spindel em Portugal

Jorge Jesus continua como o favorito do Flamengo para substituir Renato Gaúcho, e os dirigentes Marcos Braz e Bruno Spindel adotam o que vêm pregando desde o Rio: paciência para dar o xeque-mate. Neste domingo, a dupla completa uma semana junta em Portugal. Bruno desembarcou em Lisboa em 18 de dezembro, mas ficou combinado que só começariam os encontros a partir da chegada de Braz, que aconteceu na madrugada seguinte.

De domingo passado para cá, além de inúmeras reuniões, os dois viram a pressão crescer muito em cima de Jorge Jesus e foram protagonistas em acontecimentos que contribuíram para isso. As manchetes do jornais portugueses têm apontado a iminente saída do treinador. O diário “Jogo” de domingo afirmou que a diretoria benfiquista quer que o Mister entregue o cargo e, de lambuja, abdique da multa. O “Record” de sábado, dia seguinte à derrota por 3 a 0 para o Porto, falou em “JJ muito fragilizado”.

Record de sábado manchetou que o Porto crucificou Jesus e falou que o treinador ficou fragilizado — Foto: Reprodução

Record de sábado manchetou que o Porto crucificou Jesus e falou que o treinador ficou fragilizado — Foto: Reprodução

Na parte inferior da capa de "O Jogo", jornal afirma que presidente do Benfica quer que Jesus se demita — Foto: Reprodução

Na parte inferior da capa de “O Jogo”, jornal afirma que presidente do Benfica quer que Jesus se demita — Foto: Reprodução

No discurso de Braz e Spindel, serenidade é palavra-chave. Ambos defendem que o clube não teve tempo para contratar treinadores desde que Jesus deixou o Flamengo, em julho de 2020. Desta vez, fizeram uma série de entrevistas e, ao ver que as principais opções só estariam disponíveis muito possivelmente na última semana de dezembro, resolveram adiar a volta ao Brasil, inicialmente marcada para o dia 23 e posteriormente remarcada para o dia 30.

Apesar de seguros e repletos de tranquilidade com o característico “gelo no sangue”, os passos de Marcos Braz e Bruno Spindel estremeceram Portugal e ainda mais a relação de Jesus com o Benfica. A ida à casa do treinador dois dias antes do primeiro clássico com o Porto, em Cascais, pegou mal para o técnico internamente.

"A Bola" falou em "Jesus com o lugar em risco" — Foto: Reprodução

“A Bola” falou em “Jesus com o lugar em risco” — Foto: Reprodução

A presença no Estádio do Dragão, onde os donos da casa atropelaram os comandados de JJ com vitória por 3 a 0 decidida no primeiro tempo, também foi amplamente noticiada e, consequentemente, jogou mais lenha na fogueira nos pedidos de demissão de Jorge Jesus. Desde os adeptos benfiquistas a vários jornalistas portugueses.

No período que precedeu o primeiro clássico no Dragão, o vice de futebol deu algumas entrevistas à imprensa local. E, desde as primeiras, tratou de contrapor o incômodo da imprensa local com a presença dele e de Bruno num momento em que Jorge Jesus está envolvido em decisões contra o Porto. Insistiu que foram a Portugal para trazer um treinador português e não exclusivamente para tirar o Mister do Benfica.

Firmou também que “não seria um indecência” tentar tirar Jesus do Benfica mesmo com este sob contrato, lembrando sempre que em julho de 2020, Luís Filipe Vieira, então mandatário dos Encarnados, avisou que iria ao Brasil contratar o treinador e assim o fez. Nas mesmas condições.

Embora o Flamengo não dê tratamento de plano A a Jesus, sabe-se que ele é o preferido da torcida e da diretoria. A bola jogada pelo time entre meados de 2019 e o início de 2020 e a forma como conduziu o vestiário são pontos que o colocam na frente dos demais. Conhece o elenco, é querido por jogadores e funcionários e adaptou-se ao Rio de Janeiro.

Panorama de JJ alterado a partir de dezembro

 

Se no início de dezembro um possível encontro com Jesus em Portugal tinha cara de satisfação à torcida do Flamengo de como quem diz “tentamos o preferido de vocês, mas era impossível”, o panorama mudou radicalmente. Jesus nunca foi unanimidade desde o retorno ao Benfica, mas a classificação às oitavas de final da Liga dos Campeões da Uefa num grupo que tinha o Barcelona tirou de si um pouco do peso sobre as costas.

Só que a vaga na segunda fase veio com triunfo sobre o Dínamo de Kiev por 2 a 0, em 8 de dezembro, com um futebol nada convincente. Ou seja: atenuou, mas não resolveu, principalmente porque o Benfica vinha de derrota dura para o rival Sporting em casa, por 3 a 1, cinco dias antes.

A chegada dos dirigentes do Flamengo, as declarações públicas sobre o carinho por Jesus, o interesse em contar com seus serviços e para completar mais um pesado revés em clássicos, desta vez para o Porto, tornaram a situação de Jesus no Estádio da Luz praticamente insustentável.

Ele terá nova chance contra o Porto no próximo dia 30, novamente no Estádio do Dragão, desta vez pelo Campeonato Português. Se vencer, reduz para um ponto a distância para o rival, atual líder, que soma 41. Se perder, vê o adversário abrir sete de vantagem.

Além de ficar em desvantagem difícil de se tirar embora o Português esteja no primeiro turno, Jesus ampliaria sua seca no clássico: são cinco jogos sem vitórias diante do Porto desde que voltou a Lisboa. Até então, foram dois empates, uma derrota na final da Supertaça em 2020 e a recente eliminação da Taça de Portugal com o acachapante 3 a 0.

Com parcimônia e papos realizados com treinadores, agentes e presidente de clube, o Flamengo de Marcos Braz e Bruno Spindel terá mais alguns dias de “gelo no sangue” para agir. Se tudo der certo, é reaquecer a relação diante desse novo Porto x Benfica e preparar o bote certeiro para trazer o velho amor de volta para casa. Se não for possível, a dupla que comanda o futebol tem cartas na manga, já que tem realizou conversas com pelo menos cinco candidatos até então.

Como disse Braz, se for necessário, voltam de Portugal somente em 2022. Mas com um treinador e uma robusta comissão composta por lusitanos na bagagem. Paciência é o que prega o Flamengo.