Entenda por que a crise na Índia preocupa o mundo

Esse é o pior pesadelo imaginado pelos cientistas que acompanham de perto a evolução da pandemia: a aceleração da crise sanitária na Índia – um país com 1,4 bilhão de habitantes e com graves deficiências em saneamento básico. Hoje, milhares se aglomeram em filas de hospitais, enquanto faltam leitos, oxigênio, remédios e equipamentos para combater a tragédia sanitária. As ações existentes até agora – como a iniciativa Covax, criada pela ONU para distribuir vacinas para países mais pobres – não serão suficientes, avaliam os veículos de imprensa de todo o mundo, como o britânico The Guardian.

Os países que hoje só se preocupam com suas próprias crises sanitárias terão que olhar além e perceber que a pandemia mundial poderá ficar imensamente pior, a nível local e também global, se não houver uma intervenção, afirma o jornal britânico. O fato é que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, avaliou mal a situação, dizendo que a pandemia estaria terminando em março, quando na verdade uma nova onda estava começando. Sua atidude arrogante segue o que já fizeram outros líderes no mundo, como o ex-presidente americano Donald Trump e o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson.

Vacinas
Além do crescimento em grande escala do número de infectados, outra preocupação está no suprimento de vacinas para o mundo. Hoje, o maior fornecedor mundial é o Serum Institute of India, que tinha como missão prover doses para a iniciativa Covax, especialmente na África – agora essas vacinas estão sendo direcionadas para a própria Índia. Segundo o The Guardian, a China está disposta a participar da solução. Wang Wenbin, porta-voz do Ministério do Exterior chinês, disse que a China estaria disposta a prover apoio e ajuda à Índia, sem detalhar as informações. O governo do Reino Unido indicou que também poderia ajudar. Mas o que a Índia mais precisa é de insumos para suas fábricas de vacinas, hoje restritos devido às leis de exportação dos Estados Unidos. Resta ver até onde vai a intenção de auxiliar, declarada no Twitter por Antony Blinken, secretário do Estado norte-americano.

Outro fato alarmante é a falta de dados confiáveis. De acordo com o New York Times, os números reais podem ser até cinco vezes maiores do que os noticiados – 349.691 casos no último sábado, com um total de 16,9 milhões de infecções e 192.311 mortes, 2.767 nas últimas horas. Especialistas locais dizem que milhões de pessoas se recusam a sair de suas casas, e morrem sem ser atendidas, enquanto outras sofrem nas filas dos caóticos hospitais. Relatos de trabalhadores em crematórios relatam um padrão de mortes muito maior do que os números oficiais, diz o jornal. Enquanto, isso, a campanha de vacinação no país é lenta, segundo o NYT. Menos de 10% dos indianos receberam pelo menos uma dose, embora a Índia seja a maior fabricante mundial.

Soluções
Até agora, os Estados Unidos têm se recusado a dividir seus suprimentos de vacina com outros países, como o Brasil, com alta taxa de mortalidade, e países africanos, sem nenhum acesso a vacinas. Mas o caso da Índia é diferente, na avaliação da Bloomberg. Primeiro por causa da escala do problema: o maior temor é que a pandemia chegue ao 1,3 bilhão de pessoas que moram no campo. O setor de saúde indiano, muito inferior ao brasileiro, pode colapsar ainda mais rapidamente. Segundo pelo risco de novas variantes, que podem se espalhar pelo mundo.

E, por fim, por causa do seu papel como maior fornecedor de vacinas do mundo – além de fabricante de diversos medicamentos cruciais para o seu tratamento. Na visão da Bloomberg, há duas coisas que o presidente americano Joe Biden poderia fazer: levantar as restrições de exportações de insumos para vacinas, que priorizam as companhias americanas; e compartilhar imediatamente suas mais de 20 milhões de doses da vacina AstraZeneca, armazenadas e sem uso, já que o país está dando preferência a outros imunizantes.