Em NY, Bolsonaro terá encontro com Boris Johnson e secretário da ONU, mas não com Biden

BRASÍLIA — Rumo a Nova York neste domingo para participar da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro terá um encontro bilateral com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, mas não se reunirá com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Admirador de Donald Trump, Bolsonaro torceu abertamente para o republicano e demorou a cumprimentar o democrata pela vitória na disputa pela Casa Branca. Nos últimos meses, o americano vem fazendo uma série de cobranças ao governo brasileiro na esfera ambiental.

No programa de viagem divulgado pelo Palácio do Planalto à imprensa, além do encontro com Johnson há também a previsão de que Bolsonaro se reúna com o presidente ulltraconservador da Polônia, Andrzej Duda. Reeleito em 2020, o polonês fez reformas que diminuem a independência do Judiciário e teve a vitória comemorada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente.

Está programada ainda uma reunião de Bolsonaro com secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Um dia após as manifestações pelo 7 de Setembro realizadas por apoiadores do presidente, o português emitiu um comunicado em que defendeu o Estado democrático de direito e disse observar de perto a situação no Brasil.

A previsão é de que o voo com a comitiva presidencial chegue a Nova York, onde fica a sede da ONU, às 16h30 (horário de Brasília). Não há compromissos oficiais previstos neste domingo para o presidente, que é cobrado por líderes mundiais por sua política ambiental e vê a crise institucional interna repercutindo internacionalmente.

A primeira agenda de Bolsonaro será nesta segunda-feira, quando o mandatário se reunirá com Johnson. Depois, o presidente participará de uma recepção oferecida pelo embaixador brasileiro na ONU.

Na terça-feira, Bolsonaro fará o discurso de abertura da 76ª Assembleia Geral, tradicionalmente feito pelo Brasil desde 1955. Na sexta-feira, o presidente disse a apoiadores que pretende apresentar em sua fala a “realidade do que é o nosso Brasil” e prometeu “verdades” em sua viagem aos Estados Unidos. Os encontros com o presidente polônês e o secretário-geral da ONU estão programados para antes do discurso.

— Digo a vocês: na próxima terça-feira estarei na ONU participando do discurso inicial daquele evento. Lá teremos verdades, lá teremos realidade do que é o nosso Brasil e do que nós representamos verdadeiramente para o mundo — afirmou Bolsonaro.

O tema oficial da reunião da ONU é: “Construindo resiliência por meio da esperança – para se recuperar de Covid-19, reconstruir a sustentabilidade, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas”.

Durante uma transmissão nas suas redes sociais na quinta-feira, o presidente antecipou que deverá abordar no seu discurso a questão do marco temporal para a demarcação de terras indígenas. O assunto está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF), que, na última quarta-feira, interrompeu o julgamento do tema após um pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes.

Nos últimos dias, o presidente vem cobrando repetidamente o Supremo para que não mude a regra sobre a demarcação de terras indígenas. O marco temporal estabelece que a demarcação das terras só possa ser reivindicada por comunidades que ocupavam essas áreas antes da data da promulgação da atual Constituição, em 5 de outubro de 1988. Se a regra for alterada, novos territórios indígenas poderão ser demarcados nos próximos anos.

A comitiva que acompanha Bolsonaro em sua ida à ONU é composta por oito  ministros: Carlos França ( Relações Exteriores), Guedes (Economia), Gilson Machado (Turismo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência), Joaquim Leite (Meio Ambiente),  Anderson Torres (Justiça e Segurança Pública) e Marcelo Queiroga (Saúde), além do secretário de Assuntos Estratégicos, Flavio Rocha, e do presidente da Caixa, Pedro Guimarães.

Também viajam a primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL- SP). O advogado Rodrigo Mudrovitsch compõe o grupo como convidado.

Relação com Biden

A política ambiental de Bolsonaro é, desde a campanha presidencial do ano passado, motivo de crítica do atual presidente americano. Em um debate em 2020, o democrata chegou a sugerir que o Brasil poderia enfrentar “consequências econômicas significativas” caso não freasse o desmatamento.

Desde que chegou ao poder, as cobranças americanas para que o governo brasileiro leve mais a sério a questão ambiental são várias, mas sem qualquer medida concreta, o que atrai críticas de aliados mais progressistas de Biden. Após quatro anos com a pauta escanteada, o democrata tenta dar aos Estados Unidos um protagonismo inédito no combate à emergência climática.

Como o presidente da República, que tem 66 anos, diz não ter se vacinado ainda contra a Covid-19, havia incerteza quanto à possibilidade de sua participação no evento. O secretário-geral da ONU disse, no entanto, que a organização não pode pedir aos chefes de Estado e aos outros integrantes das delegações para que apresentem um comprovante de vacina contra a Covid-19.

— O que acontece, você toma vacina para quê? Para ter anticorpos. Não é isso? A minha taxa de anticorpos está lá em cima. […] Estou bem, vou tomar a vacina, a Coronavac, por exemplo, que não vai chegar a essa efetividade? Para que que eu vou tomar? Todo mundo já tomou vacina no Brasil? Depois que todo mundo tomar, vou decidir meu futuro aí — afirmou Bolsonaro na última quinta, durante sua transmissão ao vivo semanal.

O retorno de Bolsonaro ao Brasil está previsto para acontecer na própria terça-feira.