Dólar se aproxima de R$ 4,10 com cenário externo e risco político

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O dólar subia ante o real nesta sexta-feira e se aproximava dos 4,10 reais, com aversão ao risco no exterior por renovadas tensões na disputa comercial entre Estados Unidos e China, e ainda com investidores cautelosos com a cena política interna. Às 10:24, o dólar avançava 1,15%, a 4,0829 reais na venda. Na máxima, a moeda tocou 4,0880 reais, e na mínima chegou a 4,0481 reais. O dólar futuro ganhava cerca de 0,5% neste pregão.

Na quinta-feira, a divisa encerrou com avanço de 1,01%, a 4,0366 reais na venda, fechando acima dos 4 reais pela primeira vez em sete meses e meio.

A China afirmou nesta sexta-feira que os Estados Unidos precisam mostrar sinceridade para manter negociações comerciais substanciais, reagindo às sanções à gigante chinesa Huawei anunciadas pelo governo norte-americano na véspera.

Pequim ainda não disse se vai retaliar contra a última medida dos EUA na tensão comercial, embora a mídia estatal tenha adotado um tom cada vez mais estridente, com o Diário do Povo do Partido Comunista publicando comentários de primeira página que evocam o espírito patriótico de guerras passadas.

Internamente, participantes do mercado seguem digerindo o noticiário político local após mau humor generalizado na véspera que levou o dólar a superar o nível dos 4 reais no fechamento.

“A grande questão é a falta de coordenação política, a falta de uma mão forte que possa dar sequência. O governo Bolsonaro mostra que não existe nenhuma habilidade não só do presidente como também de seus ministros”, afirmou Ricardo Gomes da Silva, superintendente da Correparti Corretora.

“Coloca em risco e em dúvida a capacidade desse governo de tocar em frente as reformas que o país precisa”, afirmou.

Analistas já avaliam que o nível de 4 reais se aproxima cada vez mais do novo patamar de fundamento para a taxa de câmbio, à medida que se acentuam os riscos à agenda de reformas.

“É uma fuga de capitais”, disse Gomes da Silva, sem descartar que a divisa alcance 4,10 reais ainda neste pregão.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, fará uma palestra em encontro da indústria de construção no Rio de Janeiro, enquanto a comissão especial segue discutindo a reforma da Previdência.

Na quinta-feira, Bolsonaro disse que espera que a Medida Provisória 870, sobre a reforma administrativa, seja aprovada pelo Congresso na semana que vem sem alterações e também fez uma defesa da necessidade de reformar a Previdência.

O Banco Central realiza nesta sessão leilão de até 5,05 mil swaps cambiais tradicionais, correspondentes à venda futura dedólares, para rolagem do vencimento de julho, no total de 10,089 bilhões de dólares.

Ibovespa

O cenário externo adverso e o desânimo dos investidores com o Brasil volta a conduzir os negócios na B3, que ontem já amargou um dia de perdas (-1,75%, aos 90.024,47), sobretudo por causa das incertezas internas. Hoje, além dos temores sobre a evolução da reforma previdenciária, o quadro internacional não enseja uma sexta-feira de ganhos nas bolsas.

A expectativa mais dura da China em relação às comerciais com os Estados Unidos, além do temor de uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia sem um acordo deixam os investidores na defensiva lá fora, o que reflete também na Bolsa brasileira.

Às 10h13, o Ibovespa cedia 0,28%, aos 89.771,86 pontos.

Se essa dinâmica negativa for confirmada, Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença DTVM, não descarta a possibilidade de o Ibovespa voltar a ser negociado perto de 80 mil pontos ainda hoje. “Aqui, está tudo ruim quanto ao político e ao econômico. A reforma da Previdência não tem avançado e o lado corporativo também não ajuda, além do exterior. Por voltar para os níveis de setembro e outro de 2018”, diz.

Em 3 de outubro de 2018, por exemplo, o índice à vista atingiu 81.622,97 na mínima intraday, enquanto no dia 28 de setembro a máxima foi de 80.000,09, fechando em 79.342,43 pontos.

No campo corporativo, participantes do mercado citam que também não há notícias favoráveis, envolvendo as duas principais ações da B3: Vale e Petrobras. Em Nova York, as taxas do American Depositary Receipt (ADR) da mineradora e da estatal estão em queda esta manhã.

Ontem, os papéis da Vale caíram mais de 3%, após a informação sobre a deformação na estrutura na Mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais (MG), “passível de provocar a sua ruptura”. Já em relação à estatal petrolífera, o presidente Jair Bolsonaro admitiu que pode rever política de preços da companhia se não houver prejuízos para a estatal, o que tende a limitar eventuais perdas influenciadas pela alta do petróleo no exterior nesta manhã. Da mesma forma, a valorização do minério pode dar impedir recuos expressivos dos papéis da Vale.

Já na seara política as notícias envolvendo a família Bolsonaro se estende, colocando ainda mais dúvidas sobre a fragilidade do governo. Depois da quebra de sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro, por suspeitas de lavagem de dinheiro, agora também entram no radar das investigações ex-assessores do vereador Carlos, o outro filho do presidente.

“Já tem essa guerra entre o Legislativo e o Executivo que não ajuda a reforma avançar, e agora ainda tem essas denúncias envolvendo os filhos do presidente”, completa uma fonte.

A MCM Consultores ressalta em nota a notícia de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e dos líderes do Centrão buscarão proteger a pauta econômica, que faria parte de uma agenda própria do Congresso. Assim, o Congresso não seria prejudicado pela crise do poder Executivo.

“Tal junção pode levar o Congresso, liderado por Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre presidente do Senado, a se comportar como o adulto na sala. Sendo assim, ainda não nos parece o caso de descartar a aprovação da reforma da Previdência neste ano. No entanto, sem o engajamento do governo, será uma reforma à moda do Congresso, isto é, tende a demorar mais e ficar mais diluída no final das contas”, estima a equipe econômica da MCM.