Dirigentes foram alertados duas vezes sobre obrigação de quarentena para argentinos

Técnicos da Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo tiveram duas reuniões com a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, antes de decidirem autuar os jogadores argentinos e notificá-los para que deixassem o país.

As duas reuniões são descritas no Relatório de Investigação Epidemiológica do caso, a que tive acesso. O documento de quatro páginas foi concluído no sábado, 4 de setembro, e é assinado por três técnicas da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – uma do centro de vigilância epidemiológica, outra do Centro de vigilância Sanitária e outra da Coordenadoria do Controle de Doenças.

Segundo o relatório, a primeira reunião com a CBF ocorreu no próprio sábado às 10h. Na noite anterior, as 23h33m, a vigilância epidemiológica paulista havia recebido uma comunicação formal da Anvisa sobre a suspeita de que os atletas tivessem prestado informação falsa em suas declarações de saúde do viajante. O informe da agência reguladora trazia os nomes dos jogadores (Emiliano Martínez, Buendía, Cristian Romero e Giovani Lo Celso) e o hotel em que estavam hospedados, o Marriot de Guarulhos.

Na reunião com a CBF, as técnicas da vigilância epidemiológica questionaram a CBF sobre a suspeita e tiveram acesso aos passaportes dos jogadores, que mostravam que eles de fato haviam estado no Reino Unido num prazo inferior a 14 dias da chegada ao Brasil. A dúvida existia porque os atletas não vieram do Reino Unido, e sim de Caracas, na Venezuela. Os representantes da CBF também entregaram à vigilância exames de PCR negativos para a Covid-19.

Pela regra em vigor no Brasil hoje, a portaria interministerial 655, de 2021,  os viajantes que tenham vindo do Reino Unido, Irlanda do Norte, Africa do Sul e da Índia para o Brasil têm de cumprir uma quarentena de 14 dias, o que inviabilizaria a participação dos atletas na partida prevista para hoje.

Por isso, as técnicas da Saúde paulista informaram aos cartolas que os jogadores teriam que ficar isolados em seus quartos e não poderiam participar do treino previsto para as 18h30. Além disso, pediram para que fosse marcada uma nova reunião, as 17h, para explicar a situação a representantes da Conmebol.

Foi nessa segunda reunião, em que também estavam funcionários da Anvisa e do Ministério da Saúde, que os dirigentes futebolísticos informaram estar buscando uma exceção à regra junto ao governo brasileiro. Os dirigentes, porém, não disseram com quem exatamente estavam falando no governo. Em tese, só a Casa Civil, comandada por Ciro Nogueira, teria esse poder.

Mas os técnicos disseram que, enquanto não conseguissem a tal excepcionalidade, os jogadores deveriam permanecer nos quartos e não deveriam ir ao treino.

A vigilância paulista ainda pediu a um representante da seleção argentina que os atletas se apresentassem com os respectivos passaportes, “para que o relatório da investigação (epidemiológica) pudesse ser efetivado com evidências”. Eles,  porém, ignoraram o pedido e foram ao treino, descumprindo a recomendação de ficar nos quartos.

Em razão dessa desobediência, as técnicas da vigilância paulista comunicaram nob relatório a seus  superiores que iriam autuar a delegação argentina e informar oficialmente o caso à Anvisa e ao Ministério da Saúde.

Na manhã deste domingo, os técnicos da Anvisa pediram à Polícia Federal que os acompanhasse ao hotel para notificar os jogadores. Quando chegaram ao hotel, porém, já não encontraram mais a delegação argentina, que já tinha saído para o jogo.

O resto da história é conhecido e se desenrolou em tempo real na TV, com narração de Galvão Bueno: os técnicos da Anvisa foram para o estádio com uma equipe da PF e tentaram autuar os quatro jogadores, mas a delegação argentina se trancou no vestiário e recusou-se a liberar os atletas. O jogo acabou sendo cancelado.

Os argentinos foram notificados no aeroporto ao deixar o Brasil, na noite desde domingo. A notificação foi feita à revelia, porque os atletas se recusaram a assiná-la.  Agora serão abertos procedimentos administrativos e penais para decidir se as autuações se transformarão em multas e qual será o valor.

A multa mínima para esse tipo de infração no Brasil é de R$ 2 000. Também haverá um procedimento na PF para investigar se é o caso de indicia-los, uma vez que descumprir as leis sanitárias é crime no Brasil.