Dez anos do fim de um fenômeno: como foi o adeus de Ronaldo ao Corinthians (e ao futebol)

“Como vocês ouviram falar neste fim de semana, eu estou aqui hoje para falar que estou encerrando a minha carreira como jogador profissional”.

Neste domingo, completam-se dez anos do dia em Ronaldo Fenômeno, um craque dos gols, dribles, sorrisos e da superação, se apresentou com um olhar de tristeza a uma imensidão de jornalistas para dar fim à carreira de atleta. Eram 18 anos de títulos pela seleção brasileira, por clubes da Europa e, por fim, pela nova paixão: o Corinthians.

A relação com o Timão, aliás, clube que defendeu entre 2009 e 2011, segue firme uma década depois.

– Ele virou um torcedor mesmo, e daqueles corneteiros. É difícil ver jogo ao lado dele – brinca o economista Luis Paulo Rosenberg, diretor de marketing que costurou a contratação na época.

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Camisa do Corinthians que Ronaldo ganhou no dia de sua aposentadoria — Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Camisa do Corinthians que Ronaldo ganhou no dia de sua aposentadoria — Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

O anúncio do fim da carreira de Ronaldo foi feito na sala de imprensa do CT Joaquim Grava naquele 14 de fevereiro de 2011, uma segunda-feira. A decisão havia sido comunicada ao presidente Andrés Sanchez na sexta-feira. Antes, no dia 2, o Corinthians havia caído para o Tolima na pré-Libertadores.

Depois de duas cirurgias no joelho, lesões musculares, batalhas contra a balança, um ressurgimento absurdamente vencedor no Corinthians e o episódio triste na Libertadores, o Fenômeno concluiu que já não tinha combustível para encarar suas dores com a mesma disposição de antes.

– Ele poderia ainda almejar algumas coisas aos 34 anos, mas já era uma condição de sofrimento, o prazer já não era tão grande como anos atrás. Não dá para separar a condição física da condição humana, da condição mental. Assim temos um entendimento do que acontece com um atleta. É uma guerra mental – resume Bruno Mazziotti, fisioterapeuta que trabalhou com Ronaldo por sete anos.

Ronaldo em sua entrevista coletiva de despedida no Corinthians — Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Ronaldo em sua entrevista coletiva de despedida no Corinthians — Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

A chegada ao Corinthians

Em 2008, enquanto o Timão jogava a Série B do Campeonato Brasileiro, Andrés Sanchez sonhava muito mais alto do que apenas subir uma divisão.

Desde julho daquele ano, nutria o sonho de contratar Ronaldo, que se recuperava de mais uma grave lesão no joelho esquerdo sofrida pelo Milan, da Itália, em fevereiro daquele ano. Oito anos antes, pela Inter de Milão, a lesão no joelho direito o afastou dos gramados por 14 meses.

Foram meses duros para a recuperação do atacante e também para a negociação corintiana.

Em dezembro, após um encontro do jogador e de seu agente Fabiano Farah com Andrés e Rosenberg num restaurante de hotel no Rio de Janeiro, Ronaldo topou as condições salariais muito inferiores ao seu patamar, em proposta que teria sido feita por Andrés num guardanapo.

– Talvez tenha um pouco de romantismo nesta história do guardanapo (risos) – admite Rosenberg.

Ronaldo aceitou o salário de R$ 400 mil fixos e mais 80% dos valores de patrocínio que o Timão conseguisse com a venda das propriedades a partir dali. O clube ficava com os outros 20%.

O acordo foi anunciado no dia 9 de dezembro de 2008. Ronaldo, dias antes, já havia escolhido jogar pelo Corinthians, como conta Bruno Mazziotti, hoje trabalhando no Arsenal, da Inglaterra.

– Começamos a recuperação dele na França. Seis meses e meio depois, trouxe ele para o Flamengo para fazer a segunda parte da recuperação. A ideia dele era voltar ao Brasil, ele tinha ofertas de fora, mas esse era o sonho dele de final de carreira. Em novembro de 2008, teve o jogo amigos de Ronaldo x amigos de Zidane (Jogo contra a Pobreza), ali ele jogou 28 minutos e, no voo de volta, mencionou pela primeira vez que o Corinthians queria ele. Tudo fazia sentido. Ele ressurgindo e um clube que ressurgia.

O jogador foi apresentado no dia 12 num Parque São Jorge tomado pela Fiel e disse a frase que ficou famosa e que já foi repetida várias vezes por jogadores na chegada ao clube:

– Aqui está mais um louco para se juntar a esse bando de loucos – disse.

O marketing

Ronaldo foi um case único e histórico no Corinthians. A repercussão da ida do atacante eleito três vezes como melhor do mundo (1996, 1997 e 2002) e estrela do pentacampeonato do Brasil em 2002 para o Timão foi enorme. O assunto dominava a mídia e repercutia em todo mundo.

– Foi a junção de duas grandes marcas, com o Ronaldo trazendo uma representatividade mundial. Eu lembro que eu estava de férias na Itália, e vi naquelas televisões de terminal de trem a notícia de que o Ronaldo tinha fechado com o Corinthians – conta o ex-zagueiro William Machado, o Capita.

Hoje patrocinador máster do Timão e dono do nome da Arena, a Hypera Pharma (na época Hypermarcas) foi a grande parceira do projeto Ronaldo no Timão, injetando cerca de R$ 40 milhões por temporada. Segundo Rosenberg, uma conta de sucesso.

– Com o acordo de repassar 80% de todos os novos patrocinadores, Ronaldo acabou ganhando os R$ 2 milhões mensais de salário que queria e eu não paguei nada, já que com os meus 20% a gente já conseguia pagar o salário dele. Ronaldo jogou praticamente de graça para o clube – brinca Rosenberg.

Roberto Carlos e Ronaldo juntos no Corinthians em 2010 — Foto: Arquivo ge

Roberto Carlos e Ronaldo juntos no Corinthians em 2010 — Foto: Arquivo ge

Embora fosse muito requisitado pelas marcas, o marketing tinha um combinado com o técnico Mano Menezes: o atacante não perderia treinos e jogos por conta de compromissos comerciais.

– Um dia a Perdigão queria o Ronaldo para um evento de fim de ano com 10 mil pessoas, numa das fábricas deles, na Marginal Pinheiros, umas 17h, no horário do treino. Fui falar com o Mano, mas ele vetou, claro. Combinamos que assim que acabasse o treino, desceria um helicóptero no CT para levá-lo e que depois trazia de volta. Foi uma festa – relata Rosenberg.

A técnica

Com um hipotireoidismo (baixa produção de hormônios pela tireoide) descoberto no Milan ainda em 2007, Ronaldo sofria para se manter com peso controlado e convivia com críticas da imprensa quando alguns quilinhos a mais saltavam aos olhos. Tecnicamente, porém, o atacante impressionava a todos.

Auxiliar de Mano Menezes, Sidney Lobo diz que o atacante tinha uma capacidade de finalização acima da média, mesmo nos treinamentos.

– Eu fazia um trabalho específico com os atacantes e Ronaldo foi participar. Estava ele, Dentinho, Lulinha, André Santos, que era lateral, mas gostava de fazer, e mais um. Eu fazia três passagens de seis bolas na entrada da área, jogava na diagonal, três chutes de direita e três de esquerda. No final das 18 bolas, Dentinho fazia uns nove gols, Lulinha uns oito, e aí o Ronaldo fez 16 de 18.

– Lembro que chamei o Julio Cesar (goleiro) e falei: “Você está de sacanagem, não quer pegar a bola do homem”. Mas ele disse que queria muito, só que na hora do chute colocado, o Ronaldo virava o pé, que era uma decisão de milésimos de segundos. Repetimos o treino e ele fez 17. Faço esse treino há anos e nunca vi ninguém chegar neste patamar.

Ronaldo pelo Corinthians em 2009 — Foto: Marcos Ribolli

Ronaldo pelo Corinthians em 2009 — Foto: Marcos Ribolli

A relação dos goleiros com Ronaldo nos treinamentos, aliás, era de muita parceria.

O Fenômeno promovia apostas nas séries de cobranças de pênalti e, segundo Julio Cesar, hoje goleiro do Red Bull Bragantino, dava orientações para que os goleiros tornassem o seu desafio mais difícil durante os treinamentos.

– Ele falava como ele queria que a gente se comportasse para que dificultasse o treino para ele. Por exemplo, se ele saísse cara a cara, não era para escolher canto, era para esperar até o último segundo, pois isso dificultaria pra ele. Ele sempre queria ser melhor, mesmo tendo sido o melhor do mundo.

Um craque e suas histórias

Foram 69 jogos e 35 gols marcados no Corinthians, média de um gol a cada duas partidas. Ronaldo incendiou a torcida ao marcar o seu primeiro gol num Dérbi, em Presidente Prudente.

Foram oito gols em dez jogos. O Corinthians foi campeão paulista de 2009 contra o Santos, com o Fenômeno sendo eleito o melhor jogador do campeonato. Todos se lembram da conquista. O motivo?

– Ele ganhou um prêmio da FPF, acho que um carro, e aí pegou o valor em dinheiro e distribuiu para vários funcionários do CT em envelopes. Todo mundo ganhou uma quantia legal – lembra um antigo funcionário que esteve entre os agraciados.

Outro fato marcante foi a festa do título. Segundo Bruno Bertucci, lateral-esquerdo que passou a treinar no profissional em 2009, foi o ex-atacante quem liderou os festejos. O Timão venceria também a Copa do Brasil naquela temporada.

– Depois do título paulista, o Ronaldo fechou uma balada em São Paulo e fez uma festa para todos nós e para nossos familiares. Levei meus pais, levei minha irmã e foi muito marcante para eles poderem ter tirado uma foto com o Fenômeno depois de um título. Aquilo foi marcante – recorda-se Bertucci.

O quase fim e o fim

O Corinthians brigou em 2010, no ano de seu centenário, até a última rodada pelo título brasileiro, mas um empate contra o Goiás, no Serra Dourada, deixou o time em terceiro, exigindo que o clube disputasse a pré-Libertadores de 2011 contra o Tolima. O Fluminense foi o grande campeão.

Era 5 de dezembro. Chateados, Andrés Sanchez e Ronaldo pegaram um voo antes dos demais jogadores e partiram para São Paulo. A viagem, porém, foi assustadora, com muita turbulência e até a queda de máscaras de oxigênio quando a aeronave sofreu uma pequena queda de altitude.

– O avião quase caiu, perdeu altitude, caiu máscara, o maior desespero. O Ronaldo depois disse que só ficou pensando: “Ainda não resolvi nada da herança, vai dar uma briga enorme” – relata uma pessoa próxima ao ex-atacante no Timão.

Andrés Sanchez e Ronaldo na coletiva de despedida em 2011 — Foto: Daniel Augusto Jr / Agência Corinthians

Andrés Sanchez e Ronaldo na coletiva de despedida em 2011 — Foto: Daniel Augusto Jr / Agência Corinthians

Aquele não foi o fim, mas meses depois a carreira de Ronaldo acabaria. Logo na pré-temporada, o ex-zagueiro William Machado, que tinha se tornado gerente de futebol, já havia dado uma prensa no ex-companheiro: ele precisaria melhorar a sua condição física para jogar na temporada de 2011.

– No segundo semestre de 2010 ele já não estava conseguindo ter a mesma performance, obviamente por todos os sacrifícios que fez na carreira. Cada vez mais se tornava penoso para ele. Quando virei gerente, acreditava que ele poderia ainda performar muito bem como em 2009, mas que teria de fazer um sacrifício novamente para melhorar alguns quesitos. Acredito que ele percebeu que o corpo dele talvez não fosse responder mais uma vez, e aí ele tomou a decisão de parar – conta William.

Com a queda para o Tolima e os protestos da torcida, Ronaldo optou por chamar a responsabilidade para si e sair de cena. Na sexta, 11 de fevereiro, faltou ao treino do técnico Tite e, horas mais tarde, comunicou Andrés Sanchez de sua decisão.

– Ele disse que estava mal de cabeça, que não aguentava mais a rotina de treinar e se machucar. Disse que não queria mais – lembra o ex-assessor Guilherme Prado.

Andrés Sanchez conta, nas páginas do livro “O mais louco do bando”, lançado em 2012 e escrito por Tadeo Sanchez Oller, que viveu fortes emoções ao visitar Ronaldo em seu apartamento naquela noite.

– Ao chegar perto, notei que seu rosto ainda deslizava uma lágrima. Gelei. Sem medir palavra, Ronaldo me lançou a frase que parecia liberar um peso enorme de suas famosas costas largas: “Presidente, sinto muito, mas não dá mais. Ontem tentei levantar minha filha no colo e não consegui de tanta dor. Vou ter que parar. Chegou a hora” – relata o ex-presidente em sua autobiografia.

A conversa terminou em choro de ambos. Na segunda-feira, Ronaldo se despediu do técnico Tite, com quem conviveu apenas alguns meses, e de seus companheiros. Desde aquele momento, juntou-se ao bando de loucos, só que do outro lado da moeda.

Ronaldo pelo Corinthians contra o Tolima — Foto: Marcos Ribolli/GloboEsporte.com

Ronaldo pelo Corinthians contra o Tolima — Foto: Marcos Ribolli/GloboEsporte.com

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