Desenho ‘Virgem Maria com o Menino’ comprado por US$ 30 pode ser obra renascentista que vale milhões

 

Este mês, um painel de especialistas do Museu Britânico em Londres deu uma resposta impressionante: a obra de arte, intitulada “A Virgem e o Menino com uma flor em um banco gramado”, era um desenho desconhecido de Albrecht Dürer, um renomado artista alemão nascido em 1471.

O homem, cuja identidade não foi revelada, fez uma das descobertas mais extraordinárias da arte renascentista em anos, disseram os especialistas. O desenho pode valer dezenas de milhões de dólares.

Em 2016, um homem comprou dois itens em uma venda de propriedade em Concord, Massachusetts: um colar de jade falso por US$ 1 e um pequeno desenho da “Virgem Maria com o Menino” por US$ 30. Ele guardou o desenho em sua casa, onde o mostrou para um convidado ocasional, como contou seu amigo mais tarde. A obra tinha algo de intrigante, embora ele não soubesse de onde vinha.

Este mês, um painel de especialistas do Museu Britânico em Londres deu uma resposta impressionante: a obra de arte, intitulada “A Virgem e o Menino com uma flor em um banco gramado”, era um desenho desconhecido de Albrecht Dürer, um renomado artista alemão nascido em 1471.

O homem, cuja identidade não foi revelada, fez uma das descobertas mais extraordinárias da arte renascentista em anos, disseram os especialistas. O desenho pode valer dezenas de milhões de dólares.

A declaração de que o desenho foi obra de Dürer — uma avaliação que não é universalmente compartilhada entre os pesquisadores — surgiu como resultado de um encontro casual e dos esforços de um negociante de arte obstinado que acumulou milhares de milhas aéreas para encontrar uma resposta.

'Virgem Maria com o Menino' foi comprado por US$ 30 Foto: Leon Neal/Getty Images
‘Virgem Maria com o Menino’ foi comprado por US$ 30 Foto: Leon Neal/Getty Images

 

Primeiro, a reunião. O proprietário do desenho era amigo de Brainerd Phillipson, que gerencia uma loja de livros raros em Holliston, Massachusetts. Em 2019, Clifford Schorer, empresário e negociante de arte de Boston, parou na loja para comprar um presente de última hora.

Eles começaram a conversar sobre arte, e então Phillipson mencionou que seu amigo tinha o que eles pensaram ser um desenho de Dürer, disse Phillipson em uma entrevista. As iniciais AD na parte inferior do desenho eram “um grande indício”, comentou ele.

“Não, você tem uma gravura de Albrecht Dürer”, respondeu Schorer, como ele contaria mais tarde. As gravuras são geralmente carimbadas em um papel e são mais rápidas de fazer do que os desenhos, que são mais raros e valiosos.

Observando que os desenhos de Dürer são extremamente raros e que ele pensava que todos haviam sido contabilizados, Schorer disse a Phillipson: “Como alguém que conhece bem Albrecht Dürer, é impossível”.

Onze dias depois, o proprietário mandou uma mensagem de texto com fotos da obra de arte para Schorer, que disse que foi direto para a casa do homem, onde, segundo ele, vivia modestamente com a esposa. Schorer sentou-se à mesa da cozinha para olhar a peça.

“Era uma obra-prima ou a maior falsificação que já vi”, contou o empresário.

Schorer, que se especializou em recuperar arte perdida, pagou ao homem um adiantamento de US$ 100.000 para vender o desenho. (Os termos exatos são confidenciais, mas ambos receberão dinheiro quando for vendido, disse ele). Schorer perderia seu adiantamento se o trabalho fosse uma falsificação.

Phillipson disse que seu amigo, o dono do desenho, não quis comentar.

Três dias depois, Schorer embarcou em um vôo para a Inglaterra para entregar a obra nas mãos de Jane McAusland, uma conservadora de documentos que aconselha museus, negociantes e casas de leilão. Ela não respondeu aos e-mails do The New York Times.

Três semanas após sua visita, McAusland disse a ele que o desenho havia sido manchado com chá ou café para fazer com que parecesse uma antiguidade. Mas ele pediu que ela olhasse novamente, e ela respondeu por e-mail no dia seguinte com uma imagem que mostrava uma luz translúcida brilhando através do papel.

“Tinha a marca d’água do tridente, que só está nos desenhos de Albrecht Dürer”, contou o negociante. “Minha mente estava explodindo.”

O meio preferido de Dürer era um papel especial feito por seu patrono, Jacob Fugger, um dos homens mais ricos que já existiram. Apenas a oficina de Dürer teve acesso a esse papel, que trazia a marca d’água de Fugger, de acordo com Christof Metzger, um especialista em Dürer que estava no painel de peritos que autenticou o desenho neste mês.

Schorer disse que conheceu Metzger, o curador-chefe do Museu Albertina em Viena, em sua turnê por 14 cidades ao redor do mundo para tentar autenticar o desenho. Ao longo de mais de dois anos,  ele conheceu uma lista de especialistas. Com exceção de um dele, todos concordaram que o desenho era um Dürer original.

Pistas como o papel, os traços da caneta e o estilo da Nossa Senhora sugerem que não se trata de uma falsificação, apontou Metzger. Ele datou a peça de 1503, quando Dürer fez uma representação semelhante da Virgem Maria. Metzger acredita que o artista estava desenhando ideias para uma aquarela de 1506 intitulada “A Virgem entre uma multidão de animais”.

O desenho recém-descoberto foi a primeira “composição finalizada e completa” de Dürer a ser descoberta desde 1932, disse Metzger. As obras do artista há muito foram coletadas por causa de seu domínio tanto de detalhes granulares quanto de fantasias alucinatórias, disse Metzger, “e por esta razão, uma obra nova e desconhecida é absolutamente única na vida”.

Nem todos estão convencidos, porém, de que a obra foi desenhada por Dürer. Fritz Koreny, pesquisador sênior do Instituto de História da Arte da Universidade de Viena, acredita que foi feito por um aprendiz de Dürer, Hans Baldung. Ele não quis entrar em detalhes porque está trabalhando em sua própria publicação sobre o desenho, mas afirmou que “todos os detalhes significativos apontam para Baldung.” Koreny estimou que se o desenho fosse de Baldung, seu valor seria apenas até um quarto do que valeria se fosse de Dürer.

Não importa quem a criou, a obra de arte viajou da Alemanha para uma família nobre na Itália, para o Museu do Louvre, e colecionadores particulares na França antes de terminar em Massachusetts, disse Metzger. Segundo ele, Jean-Paul Carlhian, um arquiteto, levou a peça para Massachusetts algum tempo depois que sua família a adquiriu em 1912.

Em algum momento do século passado, a família decidiu que o desenho não era um Dürer real, destaca Schorer. Provavelmente foi assim que terminou na venda da propriedade da família Carlhian, à qual o comprador não identificado do desenho compareceu, em 2016. A filha de Carlhian, Penny Carlhian, não quis comentar.

Dürer produziu peça após peça até morrer, em 1528. Cerca de 1.500 foram contabilizadas. Sabe-se que apenas 24 permanecem em coleções particulares, o que torna o desenho recém-descoberto tão especial, justifica Metzger. Por enquanto, o desenho está na Agnews Gallery, em Londres, e será exibido no próximo mês na galeria Colnaghi, em Nova York.

Schorer e o dono do desenho podem ganhar uma bolada de dinheiro quando o desenho for colocado à venda, provavelmente em algum momento do ano novo. O empresário se recusou a especular sobre seu valor, mas disse que poderia ser a obra mais valiosa de um mestre da Renascença a chegar ao mercado desde que um esboço de giz de Raphael foi vendido por quase US$ 48 milhões, em 2012. A Agnews Gallery planeja pedir uma “soma de oito dígitos” pelo desenho, de acordo com um comunicado da galeria no mês passado.