Cuba permite ‘estrangeiros’, vê futebol crescer e tenta ir à Copa do Mundo pela 1ª vez desde 1938

A abertura comercial e cultural de Cuba na última década tem efeito direto no esporte. Conhecida pela paixão pelo beisebol, a ilha caribenha vem desenvolvendo um novo amor: o futebol. Com o acesso às principais ligas europeias na TV estatal e expansão da internet nos domicílios, Messi e Cristiano Ronaldo entraram nas casas cubanas. E, pelo visto, não saem mais.

Ontem, porém, foi dia de torcer pela seleção cubana, que estreou nas Eliminatórias da Concacaf perdendo por 1 a 0 para a Guatemala. Sábado, pega Curaçao, pelo Grupo C.

O time tem uma novidade na busca por vaga no Qatar. No total, 11 jogadores que atuam fora do país foram convocados pelo técnico Pablo Elier Sanchez. Quatro deles não tinham autorização para defender o país, o que foi concedido em novembro — como o caso de Onel Hernández, de 28 anos, que atua no Norwich, que disputou a Premier League passada.

Para estrear, ontem, Hernández viveu uma verdadeira saga — dura como promete ser a trajetória da seleção no sonho de voltar a uma Copa do Mundo depois de mais de oito décadas. Ele chegou ao estádio já no fim do primeiro tempo, após ter um voo cancelado pela erupção de um vulcão na América Central. A viagem do México à Guatemala foi feita em duas partes, de helicóptero e jatinho particular. O atacante ainda precisou esperar o resultado negativo de seu exame PCR para ir até o estádio. Entrou atrasado, mas não impediu o revés.

O cubano Onel Hernandez é um dos 'estrangeiros' convocados pela primeira vez para a seleção de Cuba. Ele joga Norwich City e se tornou o primeiro cubano a marcar um gol na Premier League Foto: TIM KEETON / AFP
O cubano Onel Hernandez é um dos ‘estrangeiros’ convocados pela primeira vez para a seleção de Cuba. Ele joga Norwich City e se tornou o primeiro cubano a marcar um gol na Premier League Foto: TIM KEETON / AFP

Nascido em Cuba, ele migrou com a família para a Alemanha na infância. Mas, por não viver no país e jogar numa liga profissional estrangeira sem autorização do governo cubano, apesar de querer, ele não podia jogar na seleção. Tudo mudou no ano passado, quando ele e outros quatro jogadores de ligas estrangeiras foram inscritos pela federação e puderam ser convocados. Havia um clamor popular e dos próprios atletas desde que Cuba autorizou o retorno de astros, como o jogador de vôlei Robertlandy Simon.

Três jogam no Brasil

Na última década, mais de 30 jogadores de futebol desertaram da ilha durante competições fora do país. O regime cubano ainda não autoriza de forma generalizada o retorno de todos.

Dos 11 que jogam fora da ilha, três atuam no Brasil: o goleiro Sandro, o zagueiro Sandy e o meio-campista Sander, contratados pelo Navegantes (SC), em dezembro, para disputar a Série C estadual. Sem torneios locais no momento, foram emprestados ao Força e Luz (RN).

— Eles falam muito das dificuldades do futebol em Cuba, que é um nível muito abaixo dos demais. Ainda estão se adaptando aqui — diz Alisson Herculano, preparador físico do Força e Luz.

De toda forma, a decisão do governo é vista como passo para fortalecer a seleção e voltar a sonhar com a ida a um Mundial. Cuba só disputou a Copa de 1938, e hoje é 180º no ranking de 210 seleções da Fifa.

O despertar para o futebol também fez os cubanos olharem para o desenvolvimento do esporte no país. A sociedade passou a cobrar mais investimentos. Em 2019, a federação local criou um campeonato nacional nos moldes de outros países latinos, com Apertura e o Clausura. Mas a pandemia impediu o segundo turno. O calendário deste ano ainda não está definido.

Este foi apenas um dos passos na tentativa de fazer desabrochar o futebol internamente. O outro se deu por certa pressão popular. E também porque futebol e política andam juntos.

— É inegável que a política tem um papel muito importante no esporte em Cuba. E há um descontentamento social crescente, muitos protestos por questões homofóbicas, prisões arbitrárias. Quem sabe o governo não queria distrair o povo? Não seria nem a primeira nem a última vez que um governo faz isso — diz a porto-riquenha Zuleika Rivera, oficial LGBTI  do Instituto Internacional sobre Raça e Igualdade, entidade que desenvolve programas em Cuba.

Febre Europeia

Antes mesmo do boom da recente abertura, três clubes europeus já tinham seus aficionados cubanos: Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique. Todos possuem organizadas em Havana, sendo a mais antiga a do Barça, também presente em outras cidades. Desde 2013, há uma placa no Camp Nou em referência à torcida cubana.

Ao longo dos anos, a troca de informações com organizadas e fãs clubes do exterior e o acesso aos jogos só aumentou o número de associados e o interesse pelo esporte. As sedes viraram ponto de encontro, assim como bares e hotéis — o Hotel Nacional de Cuba, por exemplo, é sede da organizada madridista e tem um memorial de jogadores cubanos que jogaram no clube merengue nos primeiros anos. Em 2015, Sergio Ramos visitou Havana a convite da Unicef.

— A internet tornou mais fácil o acesso dos cubanos ao que acontece no resto do mundo e o futebol é o esporte mais popular. É natural que isso leve ao interesse dentro da ilha. É impossível parar essa troca cultural quando o país abre a internet e isso também obriga o Estado a reagir — afirma Zuleika — Nos últimos anos, a mesma TV nacional transmite partidas de diferentes ligas. O turismo para o exterior também criou esse intercâmbio cultural, os cubanos que viajam estão expostos a essa febre do futebol.