Com projetos desenvolvidos em sala de aula, EE da Capital leva teoria à pratica na região do bairro Universitário

Passar muito tempo a serviço no mesmo local pode ser o ponto de partida para uma sensação de “estar em casa”. Com esse tipo de sentimento, as obrigações se tornam responsabilidades prazerosas e despertam o desejo de alimentar – cada vez mais – a satisfação de sair com o dever cumprido e, quando esse contexto se faz presente no ambiente escolar, o resultado pode ser o encontrado na Escola Estadual Teotônio Vilela.

Localizada no Conjunto Universitária II, região sudeste de Campo Grande, a escola – fundada em 1985 – chega aos 34 anos de idade repleta de conquistas e histórias construídas no decorrer de mais de três décadas. Graças ao trabalho desempenhado por professores, coordenadores e gestores, o local se tornou um celeiro de personagens engajados na realização de projetos nas mais variadas áreas. Em diversos casos, o trabalho rende frutos, salta além dos muros da escola e avança em direção à comunidade.

O ponto de partida de todo esse processo fica antes mesmo da sala de aula, no momento do planejamento. Um dos protagonistas é Vagner Cleber de Almeida, professor de Biologia. Orientador de um projeto premiado pela Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), no primeiro semestre de 2019, ele já completa sete anos na escola e segue envolvido na transformação de dúvidas e sugestões dos estudantes em novas atividades para os grupos de ciências da escola.

“Quando começamos os projetos, a iniciativa partia de nós, professores, chamando os estudantes para participar. Hoje eles querem fazer parte do clube de ciências, querem se envolver. Antes, nós chegávamos às propostas por meio de dúvidas ou discussões em sala de aula. Agora, são eles que trazem uma verdadeira ‘chuva de ideias’, que surgem – muitas vezes – a partir de problemas detectados na própria comunidade. Depois do primeiro projeto, já querem se envolver com outros e as equipes ficam fortalecidas. É bacana ver o envolvimento dos estudantes mais experientes, eles ajudam os mais novos que acabaram de entrar e fazem essa proposta seguir forte por aqui”, disse o professor.

Desenvolvimento que conta com o apoio da equipe de gestão escolar. Esse papel é desempenhado pela coordenadora pedagógica e professora de Inglês, Edineia Leite dos Santos Oliveira. Desde 2003 na escola, ela assumiu a atual função em 2017 e, desde então, estimula os colegas na criação de novas iniciativas. “Os engajamentos são os mais diversos possíveis. Hoje temos seis projetos da escola, mais seis do clube de ciências e também temos o projeto de diálogos, que visa levar um novo ponto de vista sobre a ótica do ambiente escolar, focado nas relações que temos aqui”, disse a coordenadora.

Com uma reforma que passou por todos os setores da escola, o calendário passou por mudanças e a direção adotou uma medida diferente no início do ano letivo. “Como nossa escola foi reformada e teve um calendário adequado no começo do ano, nós voltamos nossa jornada pedagógica para o desenvolvimento de projetos. Foi a nossa proposta para esse ano. Olhar voltado para o estudante, para que ele seja nosso protagonista e que o professor seja o mediador”, concluiu Edineia.

Para o diretor adjunto, Valter Queiroz, o histórico da escola fala por si e todos trabalham para seguir com esse legado de atenção e cuidado com a comunidade, que envolve a escola. “Os projetos são frutos de um olhar próprio dos alunos e reflete a preocupação dos jovens com o entorno da comunidade. É emocionante fazer parte disso tudo. Neste mês de setembro já vai fazer 19 anos que estou aqui e a escola sempre teve esse olhar para os projetos, científicos e sociais. É incrível ver o envolvimento dos nossos alunos e dos nossos professores. É o legado deles”, destacou.

O resultado desse trabalho se reflete na rotina dos estudantes. Melhora no comportamento, desempenho escolar e redução do número de faltas são relatos constantes e que não se restringem apenas aos projetos científicos. O foco da escola passa pelo cuidado social também voltado para música e artes, com um olhar especial para a prática de esportes.

Vagner e Gustavo são da mesma turma de 2º ano do ensino Médio e fazem parte do projeto de Basquete, destinado às crianças e adolescentes matriculados na escola, mas também com vagas para a comunidade. “Além do projeto ser bom para o meu desenvolvimento como pessoa, ele agrega para minha saúde de modo geral, sabe. Hoje eu venho todo dia para a escola e sempre procuro chamar os colegas. Recebemos alguns de fora da escola para complementar nossas equipes, principalmente do basquete, que tem algumas pessoas de fora, que fazem parte da comunidade e outros que não estudam aqui, mas interessados em participar mesmo assim. Alguns deles já trabalham e utilizam esse momento para recreação”, disse Vagner Arévalo Rodrigues, de 16 anos.

“Antes eu não fazia nada em casa. Até joguei em outros lugares, mas quando conheci o projeto, minha rotina mudou muito. Nossa atividade ocupa minha mente e ajuda demais na saúde. A participação no projeto ajudou também nos estudos, minha dedicação aumentou bastante. Quando eu penso: ‘hoje tem treino’, o dia já fica diferente”, completou Gustavo Paiva Lisboa, de 17 anos.

Se os projetos dentro da escola rendem premiações e tornam os estudantes mais motivados e engajados, além de levar ao envolvimento com a comunidade em geral, o resultado não é diferente com os servidores que atuam na EE Teotônio Vilela. Orgulhosos, eles trabalham com mais satisfação e auxiliam na promoção de um ambiente familiar nos ambientes de convivência da escola.

Logo na entrada, depois de passar pelo segundo portão que divide a secretaria e o pátio, os visitantes são recebidos pelo sorriso de dona Luiza Lucatelli Franco, presente na vida dos estudantes há 14 anos. Readaptada, antes ela era agente de limpeza e agora é responsável pela portaria da escola. “Nossos meninos e meninas são gratos e os familiares ficam felizes pelo trabalho feito pela escola. Só de olhar, percebemos na fisionomia deles que todos ficam satisfeitos ao ver que a escola está realmente empenhada em desenvolver o conhecimento em geral, não só na sala, mas também no cuidado com a gente da comunidade. Eles sabem sobre doenças transmissíveis, sabem quais são os cuidados e prestam atenção em cada detalhe. É lindo”, comentou.

Satisfação que chega na cozinha, personificada pela merendeira Maria Marcolina Gomes, de 60 anos. Com quase metade da vida passada na EE Teotônio Vilela, ela completou 27 anos de trabalho na escola e, mesmo às portas da aposentadoria, alega dificuldades em se ver fora da rotina diária com os estudantes. Sempre atenta, ela comentou que os projetos fizeram com que os pais se tornassem mais presentes e os estudantes, mais atenciosos com a escola.

“Sempre teve muita gente por aqui, mesmo de fora, mas parte da comunidade. Hoje tenho a impressão que temos mais presença dos pais aqui na escola por conta dessa mobilização toda e isso é importante. Quando os alunos participam dos projetos a gente percebe que eles ficam mais calmos, concentrados, inclusive a minha neta participa do grupo de xadrez e isso influencia muito na rotina dela, ajuda demais. Gosto daqui, amo essa escola, amo as pessoas, me sinto parte disso aqui sabe, me sinto feliz”, declarou Maria.