Colombiano preso no Haiti integrou comando especial do Exército e recebeu treinamento dos EUA

Estão confirmadas as identidades de dois dos colombianos presos no Haiti, acusados de integrar um comando de mercenários que assassinou o presidente Jovenel Moïse na madrugada de quarta-feira: um deles é Manuel Antonio Grosso Guarín, que até 2019 pertencia ao Exército de seu país.

Grosso Guarín, de 41 anos, é considerado um militar extremamente preparado e recebeu treinamento em um comando especial com instrutores americanos. Em 2013, ele foi designado para o Grupo de Forças Especiais de Contraterrorismo Urbano. O outro ex-militar cuja identidade foi confirmada é Naiser Franco Castañeda, que tem 30 anos e fez um curso de lanceiro do Exército da Colômbia.

A motivação e os mandantes do assassinato ainda são desconhecidos, embora a movimentação dos suspeitos indique que o crime foi planejado com bastante antecedência. Nesta sexta-feira, os Estados Unidos confirmaram que enviarão funcionários do FBI e do Departamento de Segurança Interna ao país para ajudar na investigações.

Segundo o ministro da Defesa da Colômbia, Diego Molano, entre os 15 colombianos presos no Haiti, pelo menos seis são militares reformados das Forças Armadas do seu país. Há ainda dois haitiano-americanos presos, James Solages, 35, e Joseph Vincent, 55, que moravam no Sul da Flórida, além de oito colombianos foragidos.

De acordo com o jornal haitiano Le Nouvelliste, um juiz confirmou a identidade de dois dos três colombianos mortos em confrontos com a polícia ainda na quarta-feira: Mauricio Javier Romero Medina e Duberney Capador Giraldo. Segundo o jornal El Tiempo, Capador tem 40 anos, nasceu na cidade colombiana de Armenia e foi vice-primeiro sargento do Exército colombiano, tendo ingressado nas Forças Armadas em 1990. Já Romero Medina ingressou nas Forças Armadas no mesmo ano e seria sargento reformado.

A polícia colombiana informou que o trabalho de Inteligência teria durado 32 dias. Também descobriu-se que Grosso Guarín e Franco Castañeda integraram um grupo de pelo menos quatro colombianos presos que ingressaram no Haiti no dia 6 de junho a partir da República Dominicana, país fronteiriço que divide a mesma ilha no Caribe com o Haiti.

Segundo informações oficiais divulgadas, este grupo viajou de Bogotá para a República Dominicana no dia 4 de junho, utilizando o aeroporto de Punta Cana, localizado no Leste do país.

Em seguida, os quatro homens transferiram-se para Santo Domingo, a capital dominicana, onde, segundo fotos postadas em redes sociais, fizeram turismo por lugares emblemáticos, incluindo o Palácio Nacional, a cidade colonial, o Farol de Colón e o calçadão da orla local, chamado de Malecón de Santo Domingo.

O ex-militar colombiano Manuel Antonio Grosso Guarín em foto em frente ao palácio presidencial da República Dominicana Foto: Reprodução/Facebook
O ex-militar colombiano Manuel Antonio Grosso Guarín em foto em frente ao palácio presidencial da República Dominicana Foto: Reprodução/Facebook

Todas as fotos postadas por Grosso Guarín em suas andanças por Santo Domingo foram ao ar no dia 6 de junho.

Em uma delas, ele aparece com Mario Antonio Palacios Palacios, que, segundo documentos acessados pelo jornal colombiano El Tiempo, seria um “compatriota que tem documentos colombianos, mas aparentemente é de ascendência haitiana”. Seus amigos no Facebook incluem vários soldados colombianos.

O El Tiempo também se refere a um quarto homem que estava no mesmo voo e que aparece vinculado ao Exército pelo Hospital Naval de Cartagena, e que trabalhou como enfermeiro nas Forças Armadas. Ainda não se sabe se  ele é um dos detidos.

Nesta manhã, a W Radio, da Colômbia, entrevistou uma mulher que se identificou como esposa de Francisco Eladio Uribe Ochoa, acrescentando que seria um dos capturados no Haiti. Ela disse que os colombianos não foram informados “exatamente para onde seriam levados, onde seriam necessários”.

— Disseram que era uma oportunidade de trabalho com uma agência para cuidar das famílias de xeques — afirmou ela.

Segundo ela, quem recrutou o seu marido foi “o sr. Capador, um dos que está morto”:

— Ele o conheceu em Chiquinquirá, Boyacá, quando ele era ativo antes da aposentadoria. Ele se aposentou em 2019.

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A mulher acrescentou que o marido não lhe deu o nome da empresa que o contratou, mas disse que lhe deu a sigla “CTU”.

O presidente da Colômbia, Iván Duque, deu instruções ao chefe da Direção de Investigação Criminal e Interpol (Dijin), o general de polícia Fernando Murillo, para ir ao Haiti apoiar as investigações.

“Tradutores”

Além das informações sobre os colombianos, sabe-se que James Solages, um dos dois haitiano-americanos presos, trabalhou em 2010 como segurança da Embaixada do Canadá no Haiti. Registros públicos mostram que Solages, um cidadão americano naturalizado, viveu em Tamarac, Flórida, perto de Fort Lauderdale, e não tem ficha criminal. Ele tem licenças de oficial de segurança e porte de arma de fogo.

O juiz que interrogou os dois, Clément Noël, disse ao New York Times que ambos disseram que trabalharam como tradutores para o grupo que matou o presidente, e que não chegaram a entrar no recinto em que Moïse foi morto. Segundo o juiz, foi Solages que, no início da operação gritou que o grupo era da DEA, a agência antidrogas dos EUA.

Os dois homens disseram ainda que o suposto mentor do crime era um estrangeiro chamado “Mike”, que falaria espanhol e inglês. Eles se recusaram a dizer quanto teriam recebido pela empreitada.

FonteO Globo