Bowie 75 anos: aniversário traz novo mergulho na obra do Camaleão e em seu catálogo infinito

RIO – Há seis anos o Major Tom embarcava em sua última viagem espacial. O tortuoso disco “Blackstar”, lançado no dia do aniversário de 69 anos de David Bowie, trazia em si uma despedida: gravado enquanto o músico inglês padecia de câncer no fígado, a coleção – algo  entre o art-rock e o jazz – tratava, às vezes explicitamente, do fim: “Olhe aqui para cima, estou no Céu/ Tenho cicatrizes que não se pode ver/ Tenho drama, não pode ser roubado/ Todo mundo me conhece agora”. No clipe de “Blackstar”, lançado no dia 7 de janeiro de 2015, um envelhecido Bowie cantava em uma cama de hospital. O (aclamado) lançamento veio no dia do aniversário, e a notícia da morte em 10 de janeiro, dois dias depois.

Depois das muitas (e ainda insuficientes) homenagens, tributos, filmes (como o proibidão “Stardust”, disponível no streaming, que conta a primeira viagem do jovem Bowie pelos EUA, de carro com seu violão, e documentários mil, como “David Bowie: the last five years”), peça (“Lazarus”, que chegou a ser encenada no Rio, pouco antes da pandemia, dirigida por Felipe Hirsch), neste sábado se comemoraram os 75 anos de nascimento de David Robert Jones em Brixton, Londres. Com a notícia da compra de seu catálogo pela Warner Chappell por US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão), neste começo de ano, o foco muda para o legado de David Bowie: o que fazer, como organizar (e, para muitos, como lucrar) com uma carreira camaleônica de cinco décadas?

Depois de pagar essa baba ao espólio de Bowie (ele deixou dois filhos, o cineasta Duncan Jones, de seu primeiro casamento, e Lexi, nascida em 2000 da união com a modelo e empresária somali Iman), a gravadora é a primeira a se mexer: no próprio dia 8, para marcar o aniversário, sai “Toy: box”, lançou uma versão vitaminada de um disco perdido. Em bom momento artístico no fim dos anos 1990 (quando esteve aqui com a turnê “Earthling”, no fim de 1997), ele aproveitou um show triunfante no festival de Glastonbury de 2000 para entrar com sua banda no estúdio e regravar músicas que tinha registrado entre 1964 e 1971, além de algumas novidades. Produzido por Bowie com o guitarrista e baixista Mark Plati e gravado ao vivo no estúdio em Nova York, “Toy” acabou engavetado pela gravadora EMI/Virgin, que não quis investir em um disco-surpresa. Bowie deixou a companhia, partiu para as gravações de “Heathen”, e “Toy” virou uma lenda entre os fãs. O disco foi finalmente lançado em novembro de 2021, na caixa “Brilliant adventure” e sua versão encaixotada solo chegou no aniversário, com mais dois CDs e 26 faixas.

– É o som de pessoas felizes fazendo música – disse o produtor Mark Plati na época do lançamento. – David revisitou e re-examinou seus trabalhos de décadas anteriores com novas perspectivas.

Com uma carreira marcada por fases distintas, musical e esteticamente, David Bowie é um artista que sempre vale uma nova olhada, como diz Lulu Santos.

– Acho que Bowie é o melhor artista que o rock produziu – resume o autor de “Tempos modernos”. – Eu andava desinteressado da música dele, fiquei até um pouco assustado com o “Blackstar”, aquele clima de despedida, quase uma “autoelegia” (uma espécie de discurso fúnebre). Mas quando ele morreu eu mergulhei em David Bowie de novo, e acompanho com vivo interesse. Você viu essas pop-up stores que montaram para o aniversário de 75 anos?

Sabe tudo, esse Lulu. Está tudo em bowie75.com: uma loja em Londres, na Heddon Street, e outra em Nova York, na Wooster Street, abertas desde outubro do ano passado até o fim deste mês, com exposições, vendas e eventos para comemorar os três quartos de século do astro.

Em sua coleção, Lulu tem catálogo de exposição (“Fizeram uma maravilhosa no Victoria & Albert, em Londres, em 2018”), uma biografia em quadrinhos chamada “Bowie: stardust, rayguns & moonage daydreams”, livros de luxo… e o controle remoto.

– Estou desde que ele morreu vendo milhares de entrevistas de toda a carreira, para TVs inglesas, americanas, australianas… Ele era muito inteligente, acho que sua vida e carreira foram uma longa viagem de autoconhecimento. Cada fase que vinha era como se pedisse passagem, daquela meio Jacques Brel do começo, depois o Ziggy Stardust, aí a fase americana. Mesmo a época em que ele cheirava dez gramas de cocaína por dia (por volta do meio dos anos 1970) e não conseguia completar um raciocínio, acho tudo fascinante.

O astro musical inglês David Bowie, em 1996 Foto: Leonhard Foeger / Reuters
O astro musical inglês David Bowie, em 1996 Foto: Leonhard Foeger / Reuters

O papito Supla é outro influenciado por Bowie desde a juventude.

– O show que fiz com a minha banda, Tokyo, no Masp, em São Paulo, lá nos anos 1980, era todo inspirado nele, aqueles ternos, aquela estética – lembra o cantor, que frequentava o prédio de Bowie em Nova York por conta de um amigo vizinho do ídolo. – Meu primeiro disco foi o “Diamond dogs” (1974), eu ficava fascinado com a capa, a figura andrógina do Bowie. Acho que ele foi importante na definição da sexualidade de muita gente.

A coleção de produtos físicos (“ele certamente estaria no NFT hoje”, diz Lulu) é enorme e linda, mas a indústria aposta nos tostões gerados pelo consumo digital para recuperar o investimento de um quarto de milhão de dólares aportado no catálogo (são, oficialmente, 26 discos de estúdio e 21 ao vivo, mas tem ainda muito material no baú). A partir de 2015, sua obra foi organizada em caixas, por período: “Five years (1969-1973)”, “Who can I be now? (1974-1976)”, “A new career in a new town (1977-1982)”, “Loving the alien (1983-1988)”, e a recém-lançada “Brilliant adventure (1992-2001)”, além de “Toy” e “Toy:box”. Ainda está prevista uma caixa para 2023, com os lançamento de Bowie de 2002 até sua morte. Nos últimos dias, pipocaram versões em áudio espacial de músicas da badalada  “A Reality Tour”, do começo dos anos 2000, e remixes, sempre eles.

– As caixas e outros produtos físicos são mais para os colecionadores – avalia Marcelo Castello Branco, presidente da União Brasileira dos Compositores e ex-presidente das gravadoras Universal e EMI. – Esses movimentos, de venda dos catálogos, estão acontecendo de forma muito agressiva, por companhias especializadas e até por fundos de investimentos. Nos últimos dois anos, foram comprados os catálogos de artistas como Bob Dylan, Bruce Springsteen, Fleetwood Mac e outros, total ou parcialmente. São músicas que atravessaram vários formatos e que chegam ao streaming com muita força, com uma lucratividade muito boa.

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O exemplo recente mais clássico foi o do vídeo do americano Nathan Apodaca, da cidade de Idaho Falls, que, com o carro enguiçado, pegou uma carona de skate e filmou a si mesmo cantando “Dreams”, do Fleetwood Mac, e bebendo suco de uva. Resultado: a música voltou às caixas de som, e o disco “Rumours”, de 1977, segue nas paradas (na semana passada, era o número 39 da “Billboard”), acumulando 457 semanas de sucesso.

– É por coisas assim que os investidores estão procurando – diz Castello Branco. – E hoje, com os meios digitais, são muitas formas de se usar a música e lucrar com ela. Além das canções em si, os filmes, todas as plataformas de streaming, os games… Veja só o “Get back”, dos Beatles. Esperaram de 1969  até 2021 para lançar um documento definitivo como aquele, e quando o fizeram, foi em escala mundial. Agora o investimento é na qualidade de som. A escalada é infinita.

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