Adnet, Calabresa, Caruso, Rabello e Rabin refletem sobre chegada aos 40 anos e novas formas de fazer comédia

O ano de 1981 foi fértil para o humor nacional. Mas isso o Brasil só descobriria mais tarde. Foi quando “estreou” nas maternidades uma geração que tem por ofício fazer rir, e reúne nomes como Marcelo Adnet, Júlia Rabello, Dani Calabresa, Fábio Rabin e Fernando Caruso, hoje talentos consagrados da comédia. Não é piada. Todos eles viram quarentões neste 2021.

É uma turma que completa quatro décadas de vida e em torno de 20 anos de carreira com a segurança de ter um público cativo, mas de olhos atentos em desafios como rejuvenescer a audiência, divertir sem agredir, adequar-se aos novos formatos digitais sem abrir mão da criatividade.

As redes sociais revolucionaram tudo no humor — da forma ao conteúdo, dos temas abordados à estética das produções, passando pela gestão de carreira. Este grupo não se assusta com isso, mas sabe como era a vida quando tudo “ainda era mato” no ambiente virtual.

— Somos de uma geração que viu dois mundos muito diferentes. A galera que tem 30 anos ou menos não viveu a era pré-internet — diz Marcelo Adnet, que faz aniversário no dia 5 de setembro e começou no humor em 2003 (para se ter uma ideia, o YouTube surgiria somente dois anos depois). — Sabemos como era a vida analógica. Era um mundo bem mais machista, homofóbico, classista, racista. Depois, chegamos a esse lugar em que estamos agora. Mas não somos também velhos a ponto de achar essa realidade uma loucura.

Tudo novo de novo

Mais nova no humor, a carioca Júlia Rabello, que faz 40 no próximo dia 16, começou em 2012 no coletivo Porta dos Fundos. Já atuava como atriz desde 1998, mas não nessa área, até fazer um papel cômico no teatro. Daí, foi chamada para gravar um primeiro vídeo com o grupo e enveredou de vez pelo caminho do riso.

— Vivemos uma revolução de comunicação, e nós do humor estamos nos reinventando bastante (principalmente) na questão da velocidade, desse querer sempre coisas novas — ela diz.

É uma trajetória diferente da que teve Dani Calabresa, que nunca fez outro trabalho na vida que não tivesse uma piada envolvida:

— Criar o próprio conteúdo é o ponto em comum entre nós e os mais jovens. Só que íamos para o bar, era a plataforma que tínhamos. Hoje, você faz um IGTV, um Reels. Mesmo sem cenário, você só precisa ter o que comunicar.

A paulista de São Bernardo do Campo é cria do stand-up comedy desde 2005, assim como Fábio Rabin, paulistano que dividiu com Dani várias apresentações ao vivo em bares e teatros, além de festinhas de aniversário, já que ambos nasceram em 12 de novembro. A dupla também esteve junta em programas da MTV. A emissora, aliás, foi laboratório criativo para muitos dessa geração, incluindo Bento Ribeiro, hoje mais afastado da comédia, mas outro nome que faz 40 anos em 2021.

Foi nos palcos que Dani e Rabin cruzaram com os cariocas Marcelo Adnet e Fernando Caruso, que puxavam a cena no Rio, juntamente com Rafael Queiroga e Gregório Duvivier, no “Z.É. — Zenas Emprovisadas”, em 2003.

— Somos meio “pau para toda obra”. Temos essa habilidade de jogar nas 11. Internet? A gente faz. Peça? Também — diz Fernando Caruso, nascido em 24 de março, e que está no Instagram, no YouTube, mas não no TikTok. — Aí sinto que nossa geração já não está empolgada. Acho até que vamos ter dificuldade daqui a pouco. Na próxima rede social, talvez falemos: “Deixa pra lá.”

Por enquanto, não dá para deixar de lado. Fábio Rabin, um dos pioneiros no YouTube, gosta de conversar com jovens iniciantes sobre como as estratégias na plataforma eram diferentes, sem medo de dizer algo que soe cringe:

— A cabeça do comediante antes era outra. Pensávamos: “Vou postar um vídeo para que eu seja chamado para entrevistas, aí meu show vai lotar e vou fazer um filme.” Hoje, é assim: “Vou fazer um vídeo para o canal crescer, para formar meu público e sobreviver sem depender de terceiros”.

Qual é a graça?

Outra mudança tem a ver com a licença poética, agora revista pelas pautas identitárias. Nem tudo tem graça, e eles foram uma das primeiras gerações de humor a se atentar para isso.

— Acho que estamos refletindo mais. Antes, a preocupação era ser engraçado, era responder no improviso. Temos um amor enorme pela arte de fazer rir, mas ninguém quer ofender — diz Calabresa. — Com a experiência, vamos sentindo que há reflexões importantes para fazer.

Das telas de seus celulares, esses quarentões acompanham a consolidação de falas mais plurais.

— Temos pessoas chegando de outros lugares, com visões sobre realidades diversas — diz Adnet. — Os conservadores não querem, enquanto a galera progressista acha ótimo. O progresso vai vencer porque o tempo vai para frente.

De olho nos jovens

Renovação do público é um tema importante para alguns desses humoristas que completam 40 anos em 2021. Fábio Rabin está atento para a faixa etária de seus seguidores — para usar um termo de redes sociais — e expõe esta preocupação sem fazer rodeios.

— Você faz 40 e perde uma gíria, tipo: “O que é cringe? (como a geração X se refere ao que dá “vergonha alheia”). Daqui a pouco, perdeu o contato com a galera jovem e acabou. Quando comecei com Adnet e Calabresa, tínhamos um público com uma faixa etária de 13 a 25 anos. Hoje em dia, a maior parte fica entre 25 e 45. Sempre luto para captar essa molecada de 15 anos — diz Rabin.

Para Dani Calabresa, esse público é uma espécie de plateia virtual do trabalho que ela faz na TV:

— Eles dão uma resposta para a gente.

Para estar perto dos jovens, Júlia Rabello diz que está sempre on-line:

— Faço um exercício de estar aberta para ouvir o que o mundo está falando. Gosto de ficar procurando, entendendo novas referências.

Isso que Júlia e seus colegas absorvem das redes impactam o que fazem no já consagrado Porta dos Fundos. A comediante conta que os vídeos do grupo têm ficado menores por influência das redes. Na última quinta-feira, ela estrelou a esquete “Vacina prime”, sobre sommeliers de vacina, com duração de um minuto e 35 segundos.

— O humor é uma “cosquinha” no cérebro, e os mais jovens fazem isso de uma maneira muito rápida.

Dentre os nomes da nova cena que os “quarentões” admiram estão Pequena Lô, Ademara, Esse Menino e Camila Pudim, só para citar alguns. As duas primeiras, aliás, têm Marcelo Adnet como um dos maiores fãs.

— É muito bacana ver essa galera que surge, mas o número de seguidores que as duas têm não é importante. Elas são boas e pronto. Apesar desse negócio (de curtidas) ser cruel, isso não anula em nada o fato de que estamos conhecendo grandes talentos — diz o humorista.

E como se destacar nesse universo infinito e competitivo atualmente? O veterano Fernando Caruso dá a dica:

— O que queima lastro são tipos como Esse Menino da Pfizer. Sinto que o humor isentão, que tenta agradar os dois lados, não viraliza. Veja o Douglas no vôlei fazendo sucesso para caramba com a personalidade dele, sem disfarçar.

O Globo/ Talita Duvanel