Troca de mensagens revelam suposto uso da regulação da saúde de MS para pressionar prefeitos em esquema de livros paradidáticos

Por Alex Mendes, g1 MS e TV Morena

Mensagens obtidas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) indicam que o sistema de regulação do Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso do Sul teria sido usado no esquema que movimento mais de R$ 27 milhões para pressionar ou convencer prefeitos a fechar contratos de compra de livros paradidáticos da Editora Avante.

Segundo a investigação da Operação Gutenberg, vagas para internação, exames e cirurgias eram oferecidas ou bloqueadas de acordo com o andamento das negociações com as prefeituras

As conversas envolvem o então coordenador da regulação estadual do SUS, Ed Carlo Britto Burgatt, e o advogado Gabriel Taquino de Paula, apontado pela investigação como representante comercial da Editora Avante.

Segundo o Ministério Público, Gabriel Taquino e o escritório de advocacia dele receberam mais de R$ 367 mil da editora entre 2022 e 2024. O período foi analisado após a quebra do sigilo bancário.

Segundo o Gaeco, a análise das movimentações financeiras e das mensagens trocadas entre Gabriel Taquino e Ed Carlo revelou um esquema que usava serviços públicos de saúde como moeda de negociação para a venda de livros aos municípios.

“…o pior ainda estava por vir, pois a estreita relação entre Gabriel Taquino com Ed Carlo Britto Burgatt revelou um esquema repugnante de oferecimento de vantagens ou realização de chantagens para compras de livros da Editora Avante pelos municípios, em troca de serviços de saúde como exames, cirurgias e até vagas de leitos em hospitais.”

 

Em uma das conversas obtidas após a quebra do sigilo telemático de Gabriel Taquino, os investigadores afirmam que um prefeito negociava a compra de livros enquanto buscava uma vaga de internação para um parente.

Da esquerda para direita, Ed Carlo e o advogado Gabriel Taquino — Foto: Reprodução

Da esquerda para direita, Ed Carlo e o advogado Gabriel Taquino — Foto: Reprodução

Veja trechos das mensagens obtidas na investigação

 

  • Ed Carlo: “Fala pra ele resolver tudo, que vc, saindo da sala, a vaga está garantida kkkkk.”
  • Gabriel Taquino: “Nós vamos alinhar. Eu sou parte interessada. Nós prometemos resolver a saúde dele.”
  • Ed Carlo: “Caso difícil esse, mas não impossível. Guri tá grave, hein. Mas vou resolver.”

 

  • Ed Carlo: “Amanhã cedo estará resolvido. Já falei com o pessoal de Nova Andradina, vão aceitar lá.”

 

Na sequência, acrescenta:

  • Ed Carlo: “O duro é que esses caras não cumprem. Aí a gente queima muito cartucho à toa.”

 

Gabriel responde:

  • Gabriel Taquino: “Ele vai pô. Ele é um cara de fio de bigode.”

 

Outro diálogo citado na investigação trata das negociações com a Prefeitura de Nova Alvorada do Sul, em agosto de 2022.

Segundo o Gaeco, diante da dificuldade para fechar o contrato, Ed Carlo sugeriu interromper o atendimento ao município.

  • “Vou trancar tudo aqui.”

 

Na sequência, escreveu:

  • “E não ajudo eles em nada. Amanhã tem reunião às 16 com o prefeito. Aí ele decide o que é melhor para a população dele. Saúde zero.”

 

Segundo os investigadores, a expressão “trancar tudo” indica a suspensão da oferta de serviços de regulação ao município.

Depois, as mensagens mostram que os investigados comemoraram o fechamento da negociação.

  • Ed Carlo: “Então Nova Alvorada sucumbiu??”
  • Gabriel Taquino: “Gente nossa. Porque eles não tinham saída.”

 

Na sequência, Gabriel afirma que a negociação renderia R$ 80 mil para Ed Carlo. Depois, Ed Carlo escreve:

  • Ed Carlo: “Vou dar 300 mil em exames pra eles. Fora as cirurgias. A escolha é deles.”

 

  • Gabriel Taquino: “Esse negócio nosso deve ser sigiloso. Porque tem muito invejoso externo.”
  • Ed Carlo: “Pra mim tem que ser. Ninguém pode saber. Tenho um cargo em jogo.”

 

Segundo o Gaeco, em 10 de agosto de 2022, Ed Carlo informou que havia marcado dez exames de ressonância para pacientes do município. Em seguida, enviou a Gabriel Taquino os nomes dos pacientes e os tipos de exame.

Segundo os investigadores, a mensagem indica que as vantagens já eram oferecidas como parte do acordo investigado.

As mensagens também mostram que, quando as negociações não avançavam, os investigados discutiam restringir o atendimento ao município.

Mensagem atribuída a Gabriel Taquino, em setembro de 2022:

  • “Nova Alvorada não vai rodar. Sem orçamento. Deixa o povo sem leito lá. Suspende as cirurgias de Nova Alvorada. O cara não cumpriu.”

 

Quatro dias antes, segundo a investigação, Gabriel havia enviado outra mensagem:

  • “Só opera se fechar. Senão vai morrer todo mundo.”

 

Da esquerda para direita Gabriel Taquino de Paula , Paulo e Douglas de Melo, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, na fileira de cima. Ed Carlo Britto Burgatt, Olívia Jafar e Rossana Paroschi Jafar na fileira de baixo. — Foto: Redes Sociais

Da esquerda para direita Gabriel Taquino de Paula , Paulo e Douglas de Melo, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, na fileira de cima. Ed Carlo Britto Burgatt, Olívia Jafar e Rossana Paroschi Jafar na fileira de baixo. — Foto: Redes Sociais

O que dizem os citados

 

O prefeito de Nova Alvorada do Sul, José Paulo Paleari, afirmou que o município não contratou a empresa investigada. Também disse que o secretário responsável pela negociação deixou a administração no início de 2023.

A defesa de Ed Carlo Britto Burgatt e Gabriel Taquino de Paula informou que vai se manifestar no processo no momento oportuno, já que o Ministério Público ainda não apresentou denúncia. Sobre as mensagens, o advogado afirmou que “conversa não se mantém se não tiver prova” e disse que, segundo a defesa, essas provas não existem até o momento.

A Operação Gutenberg prendeu 15 pessoas. Jessyca Duarte Burgatt, filha de Ed Carlo, foi a única investigada a obter prisão domiciliar. Segundo a investigação, ela recebeu pagamentos da Editora Avante. Já Heyder Bartz, apontado como um dos líderes do grupo, continua foragido.

FontePor G1

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